daniel kamykovas – textos e diversos

um depósito de indiscrições

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O Amor (ou o Cupido) e São Sebastião.

All men are moral.
Only their neighbors are not.
John Steinbeck.

UNO

– cara, seu prédio tem elevador com porta pantográfica…
– sim, deve ser o último do rio de janeiro.
– e aê, de buenas? fez boa viagem?
– sim, sim. ponte aérea, né? se gasta mais tempo no trajeto dentro da cidade.
– foi roubado no táxi?
– nhééé, nada além do normal. mas que apartamento, hein? contratou decorador hippie?
– mais ou menos isso. quando eu fui chamado pra trampar aqui, eu num tava esperando, daí fiquei numa pensão… num rolê sem pretensão, vi um anúncio na frente daqui do prédio, ‘aluga-se apartamento mobiliado, tratar direto com o proprietário’… interfonei e o cara me mandou subir. hippie, velho, gay. de bata e papete. estava tenso, tremia mesmo. começamos a tratar do negócio e ele cada vez mais tenso, querendo acabar logo com aquilo. no fim das contas eu acabei alugando aqui por um valor menor que o de mercado, e fiquei com a mobília e a decoração…
– cê podia ao menos ter tirado as cortinas, azul com abóbora dói na vista.
– deixa essa bosta aí. coitado, até por respeito ao velho.
– ?
– uns quatro meses depois de vir pra cá me toca o interfone e é uma mulher se dizendo irmã do proprietário, mandei subir. era uma peruona, grande, espalhafatosa e natural que nem refresco de baygon. numa voz embargada, falsamente embargada, disse que o irmão tinha morrido… fiquei de cara. ele tinha ido morar em paris depois de me alugar o apê. e em paris morreu, afogado no sena. acharam o corpo boiando. suspeitavam de suicídio. ofereci água, café, bebida – esse oferecimento de bebida parece que a deixou meio ofendida – e ela finalmente ‘se recuperou’. disse que era a única herdeira, mas que eu não me preocupasse porque o contrato seria respeitado até o fim, embora ela quisesse no fim discutir o valor do aluguel. disse que o momento de discutir seria no término do prazo contratual. ela me perguntou se eu era amigo do irmão, disse que não, que tinha visto o anúncio por coincidência
e fechara o negócio. ‘mas por que então’as coisas do meu irmão estão aqui do mesmo jeito de quando ele vivia aqui?’. isso me irritou, ela tava insinuando alguma coisa. disse, irritado, que tinha alugado um apartamento mobiliado, ‘de porteira fechada’ e que a decoração do cara não me incomodava em nada. falei até que se ela quisesse poderia levar tudo, fora a mobília mais essencial. fez cara de asco e disse que se eu quisesse, que ficasse pra mim, ela não tinha o menor interesse…
– ela devia ser bem nojentona.
– bota nojentona nisso, acho que tava é meio que comemorando de ter se livrado do viado.
– bem, tem cerveja?
– claro, tem um fardinho e meio, meia garrafa de uísque e água com gás. é tudo o que tenho
de ‘mantimentos’.
– manero.
(…)
– e qual é a de morar aqui no rio?
– vidão. moro num lugar bacana, vou andando pro trabalho, não tenho carro, se quero ir mais lonje uso bike ou táxi. não sinto falta de lá, não.
– mas e os cariocas? não enchem o saco?
– nem, só quando você conversa com eles.
– hahahahahaha, seu escroto.
– falando sério, nenhum carioca te enche o saco a menos que você fique dando umas de ‘pauliXta’. ficando na sua e sendo de boa com os caras, sem problema. tem gente boa em qualquer lugar do mundo, se pá até em curitiba.
– e as mina?
– putz nem me fale, mano… tava meio que namorando uma minazinha aê. bonitinha, cara.conheci no bukowski, um bar de rock daqui. bebemos pra caraio, ficamos falando merda, nos pegamos, e quando a gente foi ver tava trepando que nem louco aqui.
– da hora…
– foi mesmo. daí eu liguei pra mina no dia seguinte e ela falou de irmos numa exposição.maneiro, fomos, depois bebemos só um choppinho e voltamos pra cá, pra transar. na quarta da mesma semana ela me ligou e me chamou prum vernissage. achei estranho, mas de boa, fui, ficamos lá… ela meio que empolgada demais com as pessoas, fazendo muitas caras e tal, mas depois viemos pra cá, eu cozinhei, bebemos vinho e mais sexo. só na sexta quando ela me chamou pruma récita que eu vi que tava numa cilada: a mina era dessas culturete insuportável que nem as da augusta/roosevelt, só que carioca. e mestranda em cinema.
– putz… daí tu caiu fora?
– nem, porque eu tava meio que já gostando dela, o sexo era animal. resolvi segurar as pontas.besteira, a coisa foi ficando cada vez mais grave. sabe como é culturete, né? ela é uma espécie de artista sem talento que vive de ficar se esfregando em quem é cult ou conhecido. é um vampiro. não sei porque ela pirou na minha, porque eu trabalho com cultura? mas eu trabalho nas oito horas por dia da minha jornada! sou profissional, porra! enfim, um dia ela me viu no computador vendo ‘malvados’… mano, ela se transfigurou. os olhos brilharam, ela falou que era amiga do andré dahmer, que ia me apresentar pra ele. véi. eu expliquei que não, de boa, queria ficar na minha. ela disse que eu era muito tímido. bem, dois dias depois ganhei essa gravura aqui, original do dahmer.
– puta que pariu… uma coisa é gostar de malvados, outra…
– é isso aí. bem, mas até aí foda-se, a gravura é maneira. custa caro no site, mas como ela é a ‘amigona’, deve ter saído de graça.
– hahaha.
– bem, o tempo foi passando, eu me enchendo. um dia veio um amiguinho dela aqui e me ofereceu mil reais por esse quadro aí atrás de você.
– é um quadro bacana, é pintado mas tem umas paradas de colagem, a mina pintada é muito expressiva.
– é. foi pintado pelo meu finado senhorio. descobri que ele era um pintor até famosinho. e pelo olhar do filho da puta do amigo dela, acho que deve valer pelo menos cinco mil.
– se a peruona soubesse…
– aquela vaca tem reprodução do romero britto na parede do apê na barra, com certeza. ela nem deve ter se ligado que aqui tinha um quadro ou que o irmão dela era pintor. era só a bicha que envergonhava a família.
– bem, mas o que deu com a mina?
– um dia veio um amigo dela aqui, como eu num tava de muito bom humor, deixei os dois conversando na sala e fui ler e beber uísque na cozinha. mano, o cara ficou falando 3 horas sobre o banksy. queria matar os dois. quando ele foi embora cheguei pra ela e disse que não poderia levar em consideração um animal que monologa 3 horas sobre um artista plástico e muito menos ter qualquer coisa com quem escuta essa conversa. aí ela foi embora e não ligou nunca mais.
– menos mal, né?
– menos mal mas meio mau, ela tinha seu lado bom…
– larga de ser hipócrita, você só gostava do sexo.
– isso não pode ser o lado bom de alguém?
– … fumar um?
– claro.
(…)
– cê num devia de trazer fumo no avião, é pala.
– vôo doméstico? nem… e eu não ia deixar esse fumo lá embolorando, é bom e foi caro.
– o fumo aqui não é muito bom, mas é barato… o pó é bom E barato, por isso tô fora. e tem bala, também. mas disso eu não gosto.
– o amor não combina com você, hahaha.
– nunca combinou, hahaha.
– e esse som aí? funciona?
– porra, perfeito! a agulha tá nova. mas só tem as droga dos discos do véi bicha e uma fita cassete – sim, fita cassete – que a mina lá me gravou… só tem marcelo camelo, que por acaso também é amigão dela.
– deixa ver aqui. barbra streisand… NATAL COM RAY CONNIFF! hahahaha, jesus. ah, charles aznavour. isso dá pra ouvir.
– ah, véi, dois paulista num apê em copa, fumando e ouvindo aznavour é deprê demais…
– então se liga nesse som…

[barry manilow: at the copa, copacabana…]

– HAHAHAHAHAHA
– agora sim…
– e a putada?
– bem, você tá em copa, copacabana, mermão… tem de tudo. se quiser um traveco, uma anã…
– umA travecA. seu cis-heteronormativo!
– sério, brow??
– claro que não! hahahahahaha.
– bem… umA travecA… er… meia anã, então?
– hahahahahaha, seu escroto.
– mas aí, a lapa é mais divertida de noite que aqui. e menos treta.
– só… mas tô perguntando mais de onda, tô meio de boa de putaria.
– sei.
– terminando essas latinha e gente desce e dá um rolê, só pra descontrair.
– acho que tô meio de boa, e se a gente pedir pizza?
– pizza aqui no rio?
– tá, a gente vai num bar e come porção de lá, mesmo.
– caro, mas é bem melhor
– a gente xaveca umas gringa ou umas idosa pra pagar pra gente!
– hahahahahahaha, mas é um filho da puta…

DUE

– issaê é tudo muito legal, mas, papo reto? nem. se tu fica aí vacilando com essas parada por aí, no carro, tu vai perder. katana, nunchaku, shuriken, soco inglês… é tudo arma branca e dependendo tu vai ter que pagar um acerto pro polícia, fácil. eu ando só com um cano de ferro no carro, desses comum. só. outro dia eu tava loucaço, tinha bebido um monte e até tomado uma bala que eu ganhei duma biscate. os polícia me pararam, eu tava fudido. mas depois de muita conversa, acertei em 200 pela bebedeira. o cano? olharam dentro pra ver se não tinha bagulho e me devolveram. se fosse um nunchaku, uma tonfas, um bastão retrátil,
essas tuas parada aí, eu tinha perdido e ia gastar mais grana ainda.
– cano de ferro?? qualé? isso lá é arma?
– ô, arrombado, aqui é ninjutsu, tá ligado? um cano de ferro na minha mão você só me ganha se tiver com pistola, e mesmo assim num sei não.
– tá bom então, zé marrento. e que papo é esse de bala, tá ‘financiando o tráfico’ agora?
– tomar no seu cu, ô, eu ganhei da biscate. e isso de bala é coisa que sai pouco e não financia nada. o que financia é essas porra que o povo compra direto: maconha e pó. essas que viciam mesmo. tudo esses arrobado dos humanistas são maconheiros e trabalham pro tráfico. a real é essa.
– fica nessas filosofia, mas nem ajuda a pegar os vagabundo mais…
– TOMAR NO TEU CU, ARROMBADO. só num fui semana passada porque eu tive
que ir praquela bosta de são paulo.
– calma, vacilão, tô de zuá. tu devia ter visto, pegamo o maluco e moemo de pau. tava fumando pedra na rua. nem entendeu direito o que rolou. e o que deu lá na sua parada?
– nada, cesta básica e só. se fosse aqui, nem isso tinha dado. mas paulista é cuzão.
– e viado.
– principalmente viado.
– tem algum esquema pra hoje? as bee-atch?
– nem sei, depois do treino a gente vê.
– tem o lance lá, aquele lá…
– caído. só tem preto favelado naquela bosta, e pagano de fodalhão. sem contar os paraíba.
– sério?
– sério, morreu. só se for pra arrumar porrada.
– porra… onde tem umas vadia, uma fodinha?
– no xvideos.
– CHUPA MEU CARALHO, PORRA.
– hahahahahahahaha. aí, tem esquema novo, sim.
– e qual?
– vou confirmar, mas só pega mesmo de quinta.
– ah, desencana, tava pensando pra hoje.
– vai na zona. terça? só na zona. nem baile no morro…
– baile no morro é teu cu. e aí, vai ficar na punheta?
– treino, mermão. não vou chapar de terça.
– otário.
– otário é tu!
– então vai tomar no meio do seu cu que eu tô indo embora. a gente se vê na academia.
– falou.
(…)
– supino com 100 quilo? aí, fala pra caraio, mas é um frango, hein?
– falou o cara que é 100% winstrol.
– até sou, mas pego o dobro.
– só não pega as pica no seu cu.
– aí, costinha, vai ter a festa ou nem?
– nem. me deixa, porra!
– otário. otário do caralho.
– serião, aí. segura tua onda. depois de amanhã a gente se entende.
– tu num era assim.
– não, tu que num era assim. treina aí, ó, porra.
– te falar, viu.
– e os outros cara?
– tudo mais peidão que tu.
– porra, bróder, me deixa…
– já sei, virou viado.
– CHEGA. QUEM É VIADO, PORRA?!
– ow, ow, ow, se acalma aí.
– caralho, bróder, fica na tua.
– tá.
– …
– viado.
– aí, mermão. chega. onde você quer ir hoje?
– é tu que sabe!
– puta que pariu, viu…
– partiu!
– é. mermão. ‘já é’.

TRE

– ê, laiá. não nega a raça mesmo, hein? como todo bom paulistano você também se acha chef de cozinha…
– se foder, você! hahahaha.
– que teremos no… menÜ, amÜgue?
– arroz negro com lula na própria tinta.
– hum, legal. se eu soubesse que teríamos um jantar romântico teria trazido flores…
– ah, que delicado… se foder, porra!
– bem, e o que a gente vai beber?
– vinho, claro. esse vinho verde português aqui, ‘casal garcia’.
– pareceríamos cultos e sofisticados. se a gente não fosse beber itaipava depois.
– então, mano, eu tava pensando… você não trampa amanhã, né?
– nem amanhã e nem sábado, mas domingo tenho umas parada pra fazer.
– lembra dos tempos de faculdade?
– mais do que eu gostaria…
– então, a gente varava noites e noites na rua. hoje a gente bebe itaipava e fuma até uma da manhã e vamos dormir.
– estamos velhos, ué. aceite.
– estamos velhos, não mortos.
– a gente nunca pegou muita mulher nos tempos de faculdade, né? sendo bem sinceros…
– não. a gente ficava louco demais pra isso.
– nossa, toda a vez a gente alucinava…
– escuta, e se a gente saísse hoje, sem rumo, de bar em bar, até amanhecer?
– olha, talvez, hein…
– vamu’lá, cara. eu só fico aqui até sábado…
– …
– eu tenho um argumento aqui no bolso.
– ?
– …
– !!!
– CARALHO, e você tava escondendo?
– escondendo, não, guardando pra hora certa.
– ah, agora deu uma animada, hahaha. agora deu uma bela animada.
– beleza, a gente come e depois toma o doce de sobremesa. aí caímos na noite.
– na ‘naite’, hahaha.
– vamos no bukowski?
– nem, né? nada a ver, vamos sair andando, tomar umas nos botecos, olhar as coisas.
– pra isso o doce é bom.
– tá pronta essa gororoba preta aí?
– tá quase…
(…)
– olha, até que você cozinha bem…
– eu sei disso.
– além de mei viado, é arrogante.
– bem, vamos terminar a garrafa de vinho pra fazer a digestão. depois a gente toma.
– mas vamos logo.
– a gente espera bater aqui ou na rua?
– ah, melhor na rua, em algum boteco…
(…)
(…)
(…)
– PUTA QUE PARIU!
– HAHAHAHAHAHA.
– essa foi a melhor noite dos últimos 10 anos!
– cara… cara… cara…
– não acredito, caralho.
– HAHAHAHAHAHA.
– HAHAHAHAHAHA.
– até o por do sol tava show, cara.
– hahaha, você quase aplaudiu!
– e você, você quase chorou!!
– meu pulso tá alterado até agora, pega pra ver…
– hahahaha, cara, tua mão tá gelada.
– meu, notei agora, você perdeu suas calças?
– nem, pára, eu saí de sunga.
– não saiu, não.
– Ê, CARALHO! deve ter ficado no puteiro! melhor ideia ter ido lá!
– mano, me dá um abraço!
– claro.
– você é um melhor amigo que um cara pode ter.
– cara, você é foda, cara, assim eu até choro…
– aí, véi, espero que…

[TUUUD]

QUATTRO

– noite de merda, hein?
– a culpa é minha??
– tu disse que a parada era certeira…
– e era, ué.
– mermão, papo reto, era pra nóis ter morrido
– eu ia lá adivinhar que o tiozão era da PF?
– caraio, escapamo por pouco.
– aquele tiro que o cara deu tá fazendo meu ouvido zunir até agora…
– o meu também tá zunindo, mas foi por causa do telefone que me deram.
– as coronhadas nos rins também tão doendo.
– escapamos de tomar choque, os caras tavam desencapando os fios, já.
– mas tamo vivo!
– os dois.
– se tu morresse, aí, eu ia ficar malzão.
– aí, mermão, digo o mesmo.
– malzão, mesmo.
– eu também.
– aí…
– aí…

[beijo]
[entra um bardo com alaúde]

palavras contam menos do que olhares
e o gesto é muito mais que verdadeiro
contém em si ao universo inteiro
formando aleatoriamente os pares

um beijo entre dois homens musculares
flechada de um cupido traiçoeiro
que pode dar o fim mais derradeiro
a histórias pouco mais do que vulgares

histórias que ouvimos pelos bares
histórias do viver do brasileiro
de espírito cruel e carniçeiro
porém sempre velado em seus pesares

enfim, somos o povo cordial
enfim, jamais fizemos nenhum mal.

[sai o bardo do alaúde]

– MERMÃO, POR QUE TU FEZ ISSO?
– …
– MERMÃO!
– …
– MERMÃO!
– …

[empurrão]
[sai com carro cantando pneu]

FINALE

[notícia de internet]

ASSASSINADO CASAL GAY NO CALÇADÃO DE COPACABANA

Um casal homossexual foi assassinado a golpes de barra de ferro no calçadão de Copacabana hoje pela manhã. O agressor, visivelmente transtornado, foi contido por policiais militaras com o uso de spray de pimenta. Apenas gritava: “Malditos gays! Malditos gays! Morrerão todos!”. As vítimas foram encaminhadas ao tratamento hospitalar, mas não sobreviveram aos ferimentos. Segundo o delegado responsável, o agressor responderá por homicídio doloso (quando há intenção de matar) e duplamente qualificado, pois conforme o delegado: “Trata-se de um crime de ódio, o que implica no qualificativo de motivo torpe. E também houve uso de meio cruel, que é a barra de ferro, daí o segundo qualificativo”. O acusado tem diversas passagens pela polícia por agressão. Procurada por nossa reportagem, a portaria do prédio onde o casal morava disse que os dois eram “muito discretos e muito distintos”. As famílias não foram localizadas.

[COMENTÁRIOS]

Mereceram. Plena manhã de dia útil ficam de pouca vergonha na frente de crianças, de famílias. Uma hora alguém iria dar o troco. E a imprensa gayzista fica colocando esses vagabundos, degenerados, como sendo vítimas. Vítima são as crianças e idosos e gente de bem que tem que conviver com a pouca vergonha. Vivemos uma ditadura gay, implementada pelo marxismo cultural do Foro de São Paulo.

(…)

VIADOS SE FUDERO, KKKKKKK

(…)

FORA LULLA!

[conversa de telefone]

sim, sim. é coisa horrível, mesmo. a família levou as coisas dele? ah, tá. então só sobrou a tralhado meu irmão? tá. olha, eu vou colocar esse apartamento pra vender. sério, não, não. alugar não interessa. eu preciso comprar um apartamento em miami e o valor desse aí paga mais da metade de um apartamento bom lá. sei, absurdo, né? as coisas? sei lá, joga fora. doar? não melhor, não. vão falar que eu tô dando lixo pros pobres. ah, que se dane, faça o que preferir? quadro?? que quadro
o que! meu irmão era um fracassado, joga tudo no lixo. tá. tá. tchau.

[notícia de jornal na frança. não saiu nota ou tradução para o português]

OBRA DE PINTOR BRASILEIRO ENCONTRADO MORTO TEM SENSÍVEL VALORIZAÇÃO.

A obra do pintor brasileiro encontrado morto no Sena teve grande alta em seu preço. Desconhecido do grande público, o artista era bem cotado entre colecionadores por uma sequência de quadros do início dos anos 1980, chamada de “A Série da Psiquê Autônoma”, que mesclava colagem, pop-art e pintura acadêmica. Sua companheira de longa data e modelo da série disse que o pintor andava depressivo e que até voltara para Paris, sendo que estava morando com ela antes do suicídio. Cada tela desta série está avaliada em cerca de 150 mil euros. Uma tela em especial, provavelmente perdida no Brasil, tem valor estimado em 200 mil euros.

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a inocência dos bichos

quando o Amor se transforma num comando,
o Ódio pode transformar-se num prazer.
charles bukowski.

 

I

– mas você sabe o que penso, bandido bom é bandido morto.
– o mero emprego do chavão denota burrice, ainda mais quando este exprime
o modo de pensar de gente xucra, chula.
– é muito popular entre os caras pra quem você trabalha.
– eu trabalho pros cavalos da pm, não pros soldados da pm.
– dá no mesmo.
– não, cavalo só caga pelo cu. soldado adora cagar pela boca.
– …
– mas sério. é lamentável. um rapaz no último ano de administração, mesmo
que numa faculdade de merda, falar feito uma dona-de-casa analfabeta. se
fosse do governo federal, eu cassava seu prouni. aliás, não é você que andava
falando que o estado não serve pra nada, só pra roubar os indivíduos… então
porque não abre mão do benefício? tanta gente abriu mão do bolsa família…
– não sei o que uma coisa tem que ver com a outra. eu, usando desse tal
programa assistencialista, apenas estou tentanto recuperar o que é meu…
– todos os infindáveis impostos que você pagou em dois anos de vida
produtiva. como estagiário.
– vai tomar no cu.
– vou tomar uma pinga, quer?
– agh.
– viadinho.
– mas sério, o que tu e a canalhada toda querem é vingança, não justiça.
certo que a justiça do nosso país é uma merda, mas seria muito pior se
fosse institucionalizada a vingança. você deveria ler beccaria.
– quem??
– te digo que é ignorante. e também deveria ler sobre criminologia.
– pra ficar com idéia de comunista?
– sua burrice é ofensiva. quer uma cerveja, liberalzinho de internet?
– ok.

meu irmão era o inteligente, eu era o burro. ele tinha acabado de passar no
concurso pra veterinário do regimento de polícia montada. tinha cursado
federal e tava fazendo mestrado por lá. e eu, um estagiário no último ano
de a-dê-eme numa ‘uniesquina’, segundo meu irmão. eram minhas férias
antes do último semestre e resolvi passar com minha mãe, no sítio. nem sabia
que ele tinha voltado pra casa. a noiva, marília carrazzo, defensora pública,
esquerdista e o pior, paulista, tinha terminado com ele. essas idéias devem
ter um dedo dela, certeza.

– sua cerveja. amanhã tu me acompanha? tenho que comprar umas tralhas
que tão faltando aqui no sítio, lá no depósito agrícola.
– na rural?
– não. de jumentinho feito jesus entrando em jerusalem.
– com a grana que você gastou nessa rural dava pra comprar uma l-200.
– meu carro, meu dinheiro, meu problema.
– você deveria é comprar uma toyota bandeirante. em ponto morto treme
feito você antes da primeira dose.
– piadista de merda. vou tomar outra cana, se quer saber.

e fomos dormir.

II

– acorda pra cuspir, vagabundo!
– estou acordado.
– a mamãezinha tá fazendo café pra você.
– já vou, já vou.

– vocês dois voltam pra almoçar??
– não.
– ah.
cara de quem recebe uma punhalada no peito.
– temos muito o que fazer, e além disso vai ter barreado lá no bar do alceu.
– daí vocês dois vão encher a pança de barreado e de pivo…
– exatamente.
cara de quem recebe uma segunda punhalada no peito.

– temos que levar alguma coisa?
– as carteiras e só, vamos é trazer.

subindo na rural, notei o cabo da 12 ao alcance da mão do motorista.

– você ainda com essa 12?

não gostava daquela arma. meu irmão havia pego uma espingarda de caça
que era de nosso avô, serrado os canos, serrado a coronha e feito aquela
coisa.

– é boa. agora que trabalho pra pm ninguém enche o saco falando de porte
ilegal. a lei é para os inimigos, já dizia o getúlio.

um sorriso cínico, com o cinismo que só meu irmão sabia ter.

– bem, vamos que a estrada é longa.

pouco falamos no caminho. não havia som no carro.

– aqui.

meu irmão e o dono do depósito conversaram longamente sobre coisas as
quais eu não tinha a menor idéia. eu escutava e depois ajudaria a carregar.
no fim, nem carregar. os peões fizeram o serviço. com tudo acertado
meu irmão tomou uma pinga com o dono. me ofereceram, neguei, e eles
riram.

– vamos lá pro alceu, que o barreado tá na terra desde ontem. tomamos
cerveja até sair o rancho.

e fomos. era um boteco rústico de tudo na beira de uma estrada de cascalho,
estávamos nós e um pessoal a quem meu irmão cumprimentou com um
aceno meio descontente. pediu cerveja e uma pinga.

– gosto da comida e da bebida, mas não gosto muito da gente.
– não tem delivery?
– seria bem conveniente…

longo silêncio.

– a música também irrita.
– de fato.

chegou um cara e chamou meu irmão pelo nome, deu a mão. sorriram.

– mas tem tempo que tu não passa por aqui!
– pega um copo e senta aí.
– pois então, soube que tu está na polícia…
– sim. veterinário.
– tá cuidando da saúde dos soldados?
– bem observado.
– voltou pro sítio?
– na verdade, sim. mas pegar a estrada diariamente pra trabalhar tem me
dado nos nervos.
– entendo… e a noiva?
– deu em nada… fim.
– mas tu tá bem, né?
– não sou de me abalar, tu bem sabe.
– verdade.

era claro que ele tava mal e que a conversa fluia mal.

– vou pegar mais cerveja e uma pinga.
– traga duas, então.
– teu irmão tá bem, mesmo?
– se ele diz que tá…

nisso chega um nóia pedindo um real. não demos e ele foi embora irritado.

– porra, até aqui??
– como assim ‘até aqui’? o que mais tem agora é nóia por todo o canto.
– o que foi?
– teu irmão espantado do nóia pedir um real…
– ah, ele pensa que aqui é um prado bucólico e idílico.
– ?
– ?
– nóia é uma raça maldita.
– fosse teu parente, seria dependente químico e tratado como simples doente.

virou a dose.

– bem, satisfação em vê-los… mas vou comer em casa, barreado não é pra mim.
– até a vista.
– até.

foi servido o barreado. e comemos e comemos e comemos. bebemos. tivemos
que descansar por mais de uma hora até conseguirmos levantar.

– gostou?
– porra…
– duro é voltar pra casa depois de tudo isso.
– quer que eu guie?
– sou mais eu em coma.

fomos ainda mais calados que na ida. chegando, descarregamos as tralhas
no galpão, quando fomos entrar em casa,  ouvimos uma voz masculina
gritando. e o choro de nossa mãe. meu irmão foi pegar a 12 no carro.

III

entramos em casa. corremos pro quarto de minha mãe. estava sentada
em frenta à janela. chorava. um cara segurava um revólver contra seu ouvido.
deve ter se assustado. disparou e levantou o revólver na altura do rosto.
meu irmão também disparou, mirando provavelmente na cabeça dele. o tiro
acabou pegando na mão armada. arrancou o revólver, a mão e um pedaço
do pulso. tudo se foi pela  janela. caiu de joelhos, gritou desesperado
segurando o membro que sangrava. meu irmão foi disparar uma segunda
vez. falhou. pegou a arma pelo cano e deu com violência uma coronhada
na têmpora dele. desmaiou. fomos acudir nossa mãe. a carregamos
até a sala. agora eu chorava.

– espera, espera, ESPERA, PORRA!
– cara, a gente tem que correr, se não ela…
– ela morreu.
– puta que pariu! ela num é uma égua, veterinário de merda!
– escuta… esse peso… cadáver ‘pesa’ diferente. não há pulso, nem respiração.
deixa ver a cabeça aqui. é, disparo de calibre pequeno, mas trincou e
levantou o crânio aqui, note, pelo ângulo de entrada. caralho, isso saindo
é massa encefálica.

entrei em choque.

– isso não pode ficar assim.
– …
– leva a mãe pro hospital, você tá em condição de dirigir?
– …
– acorda, porra!
– tô, tô sim.
– chegando lá, fala que nós entramos em casa, tinha um cara com um
revólver apontado pra cabeça dela. fala que ele atirou, eu atirei,
ele evadiu, e eu saí atrás dele.
– não estou entendendo nada.
– FALA EXATAMENTE ISSO. o cara matou mamãe e fugiu. eu atirei e deu
de raspão. ele fugiu, eu ajudei a colocar mamãe no carro e fui atrás do cara.
ENTENDIDO?
– mas por que…
– faz o que eu falo, caralho.
– tá.
– vou dar um jeito no cara.
– mas… e a justiça, a vingança, eu não entendo…
– cala a boca e zarpa daqui. é uma hora e pouco até o hospital. tenho que
tomar um monte de providências antes de chegar a polícia.

a hora e meia mais dura de minha vida. cravei as mãos no volante,
mantive os olhos na estrada. chequei no pê-esse atônito.

– meu deus!
– corre aqui!

tentaram colocá-la na maca, mas estava em rigidez.

– meu filho, infelizmente agora é no i-eme-ele.

fiquei sentado esperando por mais de duas horas, até que veio um polícia
falar comigo.

– o senhor é filho da senhora baleada?
– sim.
– meus pêsames.
– obrigado.
– o senhor precisa nos acompanhar até o distrito.
– claro.

fiquei com um pouco de medo e amaldiçoei meu irmão.

– sente aí e conte como foi.

dei a versão do meu irmão.

– você viu a cara do assassino?
– vi. tinha uns 20 anos, cabelo curto com uns desenhos raspados, branco.
– e seu irmão… espera, seu irmão não é veterinário?
– sim, sim, do regimento da polícia montada.
– puta merda, eu conheço seu irmão… isso muda tudo.
– ?
– muda, claro. seu irmão é chegado… se vocês tão falando é certo.
vou com você até sua casa. lá conversaremos.

outras longas horas de minha vida.

– ô, veterinário, se lembra de mim?
– claro, doutor.
– mas que desgraça. meu sinceros pêsames.
– obrigado.
– tu foi atrás do maldito?
– fui e nada, o meu irmão contou do meu tiro?
– sim, que pegou de raspão e o segundo falhou.
– daí fui correr atrás, mas não achei rastro nem nada.
– sua munição deve ser velha.
– é.
– depois eu te consigo alguma.
– agradecido.
– posso ver a cena, sabe como é, minha obrigação…

gelei, poucas vezes tive tanto medo.

– foi aqui na frente da janela?
– foi.
– ela tava aberta?
– sim.
– entendo. e esse sangue?
– de minha mãe.

notei que o sangue do assassino havia sido limpo. se o cara quisesse usar o
luminol, estávamos fodidos. mas estamos no brasil, por sorte.

– pobres rapazes. podem mandar limpar.
– obrigado.
– fica assim, temos a descrição, na primeira oportunidade pegaremos o
vagabundo. mas tu sabe como é difícil.
– entendo. agora te acalme. tome um trago.
– sei que o doutor está em serviço, mas…
– em serviço para um amigo. entendi e aceito.

dessa vez eu também aceitei. nem rasgou a garganta.

– a liberação do corpo…
– vou cuidar pra ti. o necroscópico não vai demorar mais que um dia, visto
a causa mortis óbvia. viu a arma?
– um revólver, acho que 22.
– acha por quê?
– eu conheço armas. e pelo ferimento de minha mãe, um pequeno orifício,
osso trincado aberto em ‘tampa’ e escorrimento posterior de massa
encefálica. provavelmente ziguezagueou triturando o cérebro. coisa de 22 ele-erre.
mas, não sou legista, sou veterinário. mas sei algo de medicina forense.
– jesus… bem, o laudo dirá.
– pois é.
– bem, vou embora. vou cuidar que amanhã mesmo haja a liberação. irei ao
velório.
– agradecidos, doutor.

ele se foi e eu perguntei:

– e?
– vá pro seu quarto, falamos amanhã.

só consegui dormir muito tarde. na verdade nem sei se dormi. ouvi um grito
pavoroso. não sabia se era sonho.

IV

fiquei a manhã inteira pensando na minha mãe, mas pensando mais em meu
irmão. então ele matou o cara e sumiu com o corpo. justo ele que que ficava
de blablablá sobre direitos humanos e justiça e lei e o cacete. bem, acho que
agora eu tenho um argumento bom pras próximas conversas, se é que ele vai
abordar de novo esses assuntos. bateu na porta do meu quarto pelo meio dia.

– liberaram o corpo da mãe. já tá rumando pro velório. e o enterro vai ser de
manhã.
– vamos pra lá agora, né?
– antes coma alguma coisa, sei que tu deve estar sem fome, mas é melhor.
– vou tomar banho, me arrumar e partimos, pode ser?
– vou te esperar na sala.

– vamos?
– vamos.

carregava uma sacola de feira com garrafas.

– quantas pingas você está levando?
– cinco, das melhores, pra mim e pros amigos. aqui gostamos de beber o morto.

– bora lá.

chegamos no cemitério e fomos pro velório. era antigo e sujo. mamãe não
tinha parentes vivos e não tinha muitos contatos. esperávamos uns vizinhos,
umas poucas amizades, e o pessoal do meu irmão.  eu? ninguém.

– meus pêsames.

era um dos peões das fazendas vizinhas. esses caras faziam uns pequenos
serviços no sítio e mamãe pagava bem melhor que os fazendeiros por uma
jornada.

– obrigado. tome uma pela finada.
– agradecido.

tantos outros chegaram e foi mais ou menos igual. pelo visto, vieram pra
beber. veio o delegado.

– rapazes, meus sentimentos.
– obrigado, doutor.
– ah, trouxe o que prometi.

entregou a meu irmão um embrulho em papel pardo. os cartuchos de 12.

– muito obrigado, vamos beber.

a cada um que chegava, meu irmão servia uma dose e bebia outra. acabaria
desmaiando desse jeito.

– cara, pega leve.
– ah, pelo amor, tu que é o caçula.

chegou uma moça chorando. não acreditei.

– me avisaram no fórum… por que você não me ligou?

era a ex noiva, a quem minha mãe odiava.

– desculpa, não liguei pra muita gente, mesmo.
– que desgraça.
– …
– hoje até eu vou beber.
– …
– sabe, em respeito a você e a ela, se eu for nomeada pra defesa, vou me
declarar suspeita.
– é bastante ético de sua parte.
– eu tento ser.

vaca hipócrita.

e foi uma longa madrugada. lá pelas duas eu comecei a beber também. as
conversas eram tristes, respeitosas. e irritantes. pelas quatro ou cinco
comecei a chorar compulsivamente. foi assim até o sol nascer.

chegou o padre e fez seu serviço. meu irmão não tinha chamado, deve ter
sido o delegado. falou e falou, rezamos e fizemos o sinal da cruz.

– bem, vai sair o féretro.

pegamos nas alças, eu e meu irmão, o delegado, dois peões e a maldita da
defensora, ignorando os costumes. mas eu não iria discutir.

– alguém quer jogar o punhado de terra?

meu irmão se prontificou.

e assim foi o enterro. nos despedimos e pegamos a rural. novamente silêncio.
chegando em casa, fui me encaminhando pro quarto.

– espere, você não vai dormir agora, tenho algo pra mostrar.

fomos até o galpão e entramos.

– !!!

V

o assassino de minha mãe.

– por que essa cara?? eu o mataria e sumiria com o corpo, dissolveria em
soda, mas isso me incomodou. poderia entregar pra polícia, mas por quê?
o sistema é falido. resolvi tratar da ferida, ficou bom. achei que o tratamento
poderia ser mais extenso. realmente resolver a situação dele e da sociedade.
aí eu amputei a outra mão e decidi fazer outras ‘intervenções’. como cientista
e também como artista, afinal a arte nunca pode ser totalmente divorciada
da ciência.

estava em uma cama improvisada em uma bancada, atado. recebia soro.

– há de ver, há de ver.

tirada a mordaça, estava grunhindo.

– aqui é hospital? estou doente, doente, doente…
– sim, é hospital. vamos tratar direitinho de você.
– ah… não parece hospital.
– aqui, seu remédio.

aplicou uma injeção.

– quetamina… dá uma viagem boa em menor quantidade. quer experimentar?
– er… melhor não…
– não é o mais indicado aqui, mas é o que tinha.

apagou de novo.

– bem, agora vou amputar os dois pés, quer ajudar?

tive uma violenta queda de pressão, fiquei branco.

– frouxo… é uma simples amputação. vou fazer isso antes de dormir.
sabia que no passado eram feitas em menos de um minuto? vai ser rápido.
– você…
– deixe de ser cuzão, venha.

acompanhei o ‘procedimento’, ou que caralho que aquilo seja. o bisturi cortava
a pele, a gordura, os músculos. os vasos foram rapidamente suturados, mesmo
bêbado e sem dormir meu irmão era ágil. chegando ao osso, a serra. foi tudo
rearranjado e suturado fazendo um coto. no outro pé foi igual.

corri depois pra fora e vomitei.

– e se alguém souber?
– que o quê! olhe em volta! num tem porra nenhuma. ele pode gritar o que
for. e mesmo assim, isso também vai ser resolvido.
– mas é desumano… justo você…
– desumano é o caralho. tu nunca te importou com essas coisas. estou num
experimento.
– da idade média ou nazista?
– ah, porra.
– o que você vai fazer?
– o que eu tenho que fazer, ué.
– quero ir embora daqui do sítio.
– vai trair teu sangue, teu merda?? fique um tempo, preciso de você.

bebeu a pinga do gargalo. me ofereceu. neguei.

– fico.
– ótimo, terei que fazer mais umas coisinhas. depois ele estará pronto.
– pronto pra quê?
– pra viver outra vida.
– não entendo, não entendo você. mas vou ficar ao seu lado.
– pra isso é que serve a família.

me abraçou, entramos, eu fui dormir. acordei com estalos, tiros?

– porra, o que você tá fazendo?

meu irmão atirava em latinhas usando o revólver do assassino.

– não tá vendo?
– dentro de casa?
– as latinhas tão na janela, e só faltam 3.
– caralho…
– esse taurus tem 9 tiros…

derrubou as 3 latinhas. abriu o tambor. tirou as cápsulas usadas.

– calibre ridículo, e ainda assim matou mamãe.
– o revólver não matou ninguém. quem matou é seu… experimento.
– quer pra ti o revólver?
– acho que não…
– vou guardar, então. minha arma é a 12.
– o que falta fazer com o cara?
– tu vai ver.

VI

acordei no dia seguinte e aproveitei o silêncio pra sair sem fazer alarde. precisava
refletir sobre tudo aquilo, queria caminhar. andei por umas boas horas e não refleti
nada. começava a chorar quando pensava em minha mãe e tinha arrepios pensando
em meu irmão. desisti de pensar e apenas andei. cheguei numa lagoa pequena onde
eu pesquei umas vezes quando criança. sempre detestei pescar. ou pensar.

voltei e fui pro galpão. meu irmão estava operando nosso hóspede.

– caminhaste bastante?
– fui até a lagoa.
– saudade de pescar por lá.
– o que você está fazendo agora??
– retirei todos os dentes, fora 4 molares em cada arcada. ele poderá mastigar, mas
não morder. também tirei as pregas vocais. não poderá falar ou gritar.
– o que você vai fazer ainda??
– fique e veja.

pegou um instrumento parecido com um picador de gelo. ou era um picador de
gelo mesmo.

– chamavam a isso de ‘cirurgia da alma’.

olhei em silêncio. ele começou a enfiar a ponta do objeto por sobre o olho do nosso
amigo. foi entrando lentamente.

– droga, o osso aqui está mais duro do que deveria.

pegou um martelinho e começou a bater.

– a camada de osso é tão fina, mas como é a primeira vez que faço isso…

o instrumento deve ter transpassado a camada óssea, pois foi até quase o fim. fez
movimentos para um lado e para o outro.

– agora tenho que fazer no outro olho também.
– isso é uma lobotomia, né??
– sim. óbvio.

caralho. fiquei lá assistindo. não sentia mais os arrepios, nem a ânsia de vômito. só
olhava. nem me perguntava mais o porquê.

– serviço feito. você foi na lagoa, né?
– sim.
– tinha peixe?
– como caralhos eu vou saber??
– retardado. bem, vou pegar uma garrafa de pinga e um caniço e curtir a tarde por lá.
não está a fim?
– pode ser.
– a gente leva cerveja também.

fomos pescar. o que seria melhor pra relaxar depois de ter executado uma lobotomia,
não é mesmo?

– cara, sério, e depois?
– a gente passa na farinha e frita.
– não se faça de comediante. falo do cara.
– ué, vou manter preso numa corrente, com uma cama no chão, um balde pra cagar
e uma porção diaria de bonzo.
– !!!
– relaxa, depois da lobotomia ele nem mais sabe o que acontece. como um cachorro,
quer dizer, um cachorro burro.
– e você vai cuidar?
– claro!! vai ser meu cachorro, meu bicho.
– bem, você sabe que eu tenho que voltar pra faculdade…
– sim, sim. é claro que eu sei, pode voltar quando quiser, o pior já foi. tá tudo bem.
– ótimo, vou partir amanhã, pode ser?
– não entendo a pressa, mas tudo bem.
– já disse, tenho que me formar.
– sei bem, sei bem.

não pescamos nada e voltamos. meu irmão estava meio bêbado e foi dormir. eu não
dormi nada apenas esperei o tempo passar.

– fez as malas?
– feitas.
– pois leve para a rural, te levo até a rodoviária.
– obrigado.
– não tem de que.

e pegamos a estrada. no caminho inteiro cantarolou ‘i’ve got you under my skin’.

– me dê um abraço.

e parti.

VII

nunca fomos de manter muita correspondência, eu e meu irmão. uns e-mails e só,
na verdade bem de vez em quando. pra minha surpresa, ele começou a mandá-los
quase diariamente. o assunto? aquele aborto que ele havia criado. parei de responder,
depois parei de ler e até de abrir. recebia e ignorava. ele telefonou:

– não me responde mais via internet?
– ando muito ocupado.
– entendo.
– ele teve gangrena numa perna, tive que amputar mais. acho que foram as moscas.
– escute, eu não quero mais saber disso, você entende?
– ah.
– sério… sério… o que você faz é problema seu, mas eu não quero mais saber.
– teu bosta.

não recebi mais e-mails e nem telefonemas por uns 3 meses. lá pelo meio do semestre
recebi uma ligação, era o delegado.

– rapaz, guardo de te dar péssimas notícias, teu irmão faleceu…
– como??
– teu irmão faleceu e parece; não parece, na verdade absolutamente tudo indica, que
foi suicídio. sabe alguma coisa sobre o que pode ter abalado o psíquico dele?
– ele andava bebendo muito.
– ele sempre bebeu muito.
– e teve mamãe…
– quer que eu cuide do velório pra ti enquanto tu não chega aqui??
– sim, claro.
– bem, venha logo. estaremos esperando.

corri para meu computador e abri meu e-mail. havia um de meu irmão com o assunto
‘eu não tinha o direito’:

‘teu silêncio é meu silêncio, de nada te culpo. não é esse meu caso. mas aconteceu algo,
nosso cachorro… ele morreu, e a culpa é minha. eu larguei perto dele uma garrafa
vazia. não achei que ele faria nada. pois bem, ele deu um jeito de quebrar e comeu
os cacos. uma garrafa inteira. não tive tempo de fazer nada, só achei o corpo ali
inerte pela manhã. eu não tinha o direito. eu não tinha o direito. ia dissolver o corpo
com soda, mas conforme já havia pensado, achei pouco ecológico. desmembrei, vou
enterrá-lo no meio da reserva daqui da fazenda vizinha, onde ninguém vai. não se
preocupe. ninguém vai descobrir.
tente me responder.
por favor.’

datava de três dias.

– doutor?
– ah, rapaz… que desgraça. que desgraça…
– como foi?
– tiro de 12 na boca. tu nem imagina o horror.
– …
– ele tava bebendo muito mesmo, né? tava faltando direto no trabalho e não falava
com ninguém.
– doutor, meu irmão sempre quis ser cremado…
– sério? bem, filho, cremar cadáver de morte violenta é muito difícil…
– bem, deixa, ele que fique com minha mãe, então.
– sim, meu filho, é mais cristão também.

olhei  pro delegado, com um sorriso.

vieram as mesmas pessoas praticamente que no velório de minha mãe. inclusive a
vaca da defensora. ela me cumprimentou chorando e disse ‘eu sei’. gelei. a noite foi
longa, não servi mais de duas garrafas de pinga que estavam na cozinha, não ia
gastar meu dinheiro com pinga pra essa gente.

corpo enterrado, só pensava: ‘eu sei’… sabe o caralho, vadia. sabe o caralho de porra
nenhuma.

voltei pra faculdade, e comecei a me aproximar mais de um colega com quem eu já
havia conversado bastante. eu sabia que não seria efetivado no meu trabalho. brasiguaio…
e o pai tinha uma loja de armas em ciudad del este, ele queria expandir. precisava
de um sócio. nos meses seguintes cuidei de liquidar minha herança, o sítio. foi fácil,
o fazendeiro ao lado comprou o lugar por um bom preço, até. não vendi a rural e
nem as armas. colei grau, peguei a caminhonete e rumei para o oeste. então seria isso:
vender armas. é pena que a legislação brasileira seja de um estatismo arcaico e nos
obrigue a operar ilegalmente por aqui… estatismo, atraso, país de merda.

que falta faz uma segunda emenda.

quase chegando na froteira paraguaia eu me lembrei de um escritor francês que
certa vez meu irmão estava lendo. o cara tinha largado da poesia pra mexer com armas
na áfrica. e tinha o nome de um personagem do stallone… acho que rambo ou rocky.
tanto faz. ele escreveu um treco chamado ‘uma estação no inferno’ antes de largar
dessa viadagem de escrever. pensei em fazer o relato do meu inferno. eis o que vocês
leram.

a inocência dos bichos

VII

 
nunca fomos de manter muita correspondência, eu e meu irmão. uns e-mails e só,
na verdade bem de vez em quando. pra minha surpresa, ele começou a mandá-los
quase diariamente. o assunto? aquele aborto que ele havia criado. parei de responder,
depois parei de ler e até de abrir. recebia e ignorava. ele telefonou:

– não me responde mais via internet?
– ando muito ocupado.
– entendo.
– ele teve gangrena numa perna, tive que amputar mais. acho que foram as moscas.
– escute, eu não quero mais saber disso, você entende?
– ah.
– sério… sério… o que você faz é problema seu, mas eu não quero mais saber.
– teu bosta.

não recebi mais e-mails e nem telefonemas por uns 3 meses. lá pelo meio do semestre
recebi uma ligação, era o delegado.

– rapaz, guardo de te dar péssimas notícias, teu irmão faleceu…
– como??
– teu irmão faleceu e parece; não parece, na verdade absolutamente tudo indica, que
foi suicídio. sabe alguma coisa sobre o que pode ter abalado o psíquico dele?
– ele andava bebendo muito.
– ele sempre bebeu muito.
– e teve mamãe…
– quer que eu cuide do velório pra ti enquanto tu não chega aqui??
– sim, claro.
– bem, venha logo. estaremos esperando.

corri para meu computador e abri meu e-mail. havia um de meu irmão com o assunto
‘eu não tinha o direito’:

‘teu silêncio é meu silêncio, de nada te culpo. não é esse meu caso. mas aconteceu algo,
nosso cachorro… ele morreu, e a culpa é minha. eu larguei perto dele uma garrafa
vazia. não achei que ele faria nada. pois bem, ele deu um jeito de quebrar e comeu
os cacos. uma garrafa inteira. não tive tempo de fazer nada, só achei o corpo ali
inerte pela manhã. eu não tinha o direito. eu não tinha o direito. ia dissolver o corpo
com soda, mas conforme já havia pensado, achei pouco ecológico. desmembrei, vou
enterrá-lo no meio da reserva daqui da fazenda vizinha, onde ninguém vai. não se
preocupe. ninguém vai descobrir.
tente me responder.
por favor.’

datava de três dias.

– doutor?
– ah, rapaz… que desgraça. que desgraça…
– como foi?
– tiro de 12 na boca. tu nem imagina o horror.
– …
– ele tava bebendo muito mesmo, né? tava faltando direto no trabalho e não falava
com ninguém.
– doutor, meu irmão sempre quis ser cremado…
– sério? bem, filho, cremar cadáver de morte violenta é muito difícil…
– bem, deixa, ele que fique com minha mãe, então.
– sim, meu filho, é mais cristão também.

sorrio pro delegado.

vieram as mesmas pessoas praticamente que no velório de minha mãe. inclusive a
vaca da defensora. ela me cumprimentou chorando e disse ‘eu sei’. gelei. a noite foi
longa, não servi mais de duas garrafas de pinga que estavam na cozinha, não ia
gastar meu dinheiro com pinga pra essa gente.

corpo enterrado, só pensava: ‘eu sei’… sabe o caralho, vadia. sabe o caralho de porra
nenhuma.

voltei pra faculdade, e comecei a me aproximar mais de um colega com quem eu já
havia conversado bastante. eu sabia que não seria efetivado no meu trabalho. brasiguaio…
e o pai tinha uma loja de armas em ciudad del este, ele queria expandir. precisava
de um sócio. nos meses seguintes cuidei de liquidar minha herança, o sítio. foi fácil,
o fazendeiro ao lado comprou o lugar por um bom preço, até. não vendi a rural e
nem as armas. colei grau, peguei a caminhonete e rumei para o oeste. então seria isso:
vender armas. é pena que a legislação brasileira seja de um estatismo arcaico e nos
obrigue a operar ilegalmente por aqui… estatismo, atraso, país de merda.

que falta faz uma segunda emenda.

quase chegando na froteira paraguaia eu me lembrei de um escritor francês que
certa vez meu irmão estava lendo. o cara tinha largado da poesia pra mexer com armas
na áfrica. e tinha o nome de um personagem do stallone… acho que rambo ou rocky.
tanto faz. ele escreveu um treco chamado ‘uma estação no inferno’ antes de largar
dessa viadagem de escrever. pensei em fazer o relato do meu inferno. eis o que vocês
leram.

a inocência dos bichos

VI

acordei no dia seguinte e aproveitei o silêncio pra sair sem fazer alarde. precisava
refletir sobre tudo aquilo, queria caminhar. andei por umas boas horas e não refleti
nada. começava a chorar quando pensava em minha mãe e tinha arrepios pensando
em meu irmão. desisti de pensar e apenas andei. cheguei numa lagoa pequena onde
eu pesquei umas vezes quando criança. sempre detestei pescar. ou pensar.

voltei e fui pro galpão. meu irmão estava operando nosso hóspede.

– caminhaste bastante?
– fui até a lagoa.
– saudade de pescar por lá.
– o que você está fazendo agora??
– retirei todos os dentes, fora 4 molares em cada arcada. ele poderá mastigar, mas
não morder. também tirei as pregas vocais. não poderá falar ou gritar.
– o que você vai fazer ainda??
– fique e veja.

pegou um instrumento parecido com um picador de gelo. ou era um picador de
gelo mesmo.

– chamavam a isso de ‘cirurgia da alma’.

olhei em silêncio. ele começou a enfiar a ponta do objeto por sobre o olho do nosso
amigo. foi entrando lentamente.

– droga, o osso aqui está mais duro do que deveria.

pegou um martelinho e começou a bater.

– a camada de osso é tão fina, mas como é a primeira vez que faço isso…

o instrumento deve ter transpassado a camada óssea, pois foi até quase o fim. fez
movimentos para um lado e para o outro.

– agora tenho que fazer no outro olho também.
– isso é uma lobotomia, né??
– sim. óbvio.

caralho. fiquei lá assistindo. não sentia mais os arrepios, nem a ânsia de vômito. só
olhava. nem me perguntava mais o porquê.

– serviço feito. você foi na lagoa, né?
– sim.
– tinha peixe?
– como caralhos eu vou saber??
– retardado. bem, vou pegar uma garrafa de pinga e um caniço e curtir a tarde por lá.
não está a fim?
– pode ser.
– a gente leva cerveja também.

fomos pescar. o que seria melhor pra relaxar depois de ter executado uma lobotomia,
não é mesmo?

– cara, sério, e depois?
– a gente passa na farinha e frita.
– não se faça de comediante. falo do cara.
– ué, vou manter preso numa corrente, com uma cama no chão, um balde pra cagar
e uma porção diaria de bonzo.
– !!!
– relaxa, depois da lobotomia ele nem mais sabe o que acontece. como um cachorro,
quer dizer, um cachorro burro.
– e você vai cuidar?
– claro!! vai ser meu cachorro, meu bicho.
– bem, você sabe que eu tenho que voltar pra faculdade…
– sim, sim. é claro que eu sei, pode voltar quando quiser, o pior já foi. tá tudo bem.
– ótimo, vou partir amanhã, pode ser?
– não entendo a pressa, mas tudo bem.
– já disse, tenho que me formar.
– sei bem, sei bem.

não pescamos nada e voltamos. meu irmão estava meio bêbado e foi dormir. eu não
dormi nada apenas esperei o tempo passar.

– fez as malas?
– feitas.
– pois leve para a rural, te levo até a rodoviária.
– obrigado.
– não tem de que.

e pegamos a estrada. no caminho inteiro cantarolou ‘i’ve got you under my skin’.

– me dê um abraço.

e parti.

a inocência dos bichos

V

o assassino de minha mãe.

– por que essa cara?? eu o mataria e sumiria com o corpo, dissolveria em
soda, mas isso me incomodou. poderia entregar pra polícia, mas por quê?
o sistema é falido. resolvi tratar da ferida, ficou bom. achei que o tratamento
poderia ser mais extenso. realmente resolver a situação dele e da sociedade.
aí eu amputei a outra mão e decidi fazer outras ‘intervenções’. como cientista
e também como artista, afinal a arte nunca pode ser totalmente divorciada
da ciência.

estava em uma cama improvisada em uma bancada, atado. recebia soro.

– há de ver, há de ver.

tirada a mordaça, estava grunhindo.

– aqui é hospital? estou doente, doente, doente…
– sim, é hospital. vamos tratar direitinho de você.
– ah… não parece hospital.
– aqui, seu remédio.

aplicou uma injeção.

– quetamina… dá uma viagem boa em menor quantidade. quer experimentar?
– er… melhor não…
– não é o mais indicado aqui, mas é o que tinha.

apagou de novo.

– bem, agora vou amputar os dois pés, quer ajudar?

tive uma violenta queda de pressão, fiquei branco.

– frouxo… é uma simples amputação. vou fazer isso antes de dormir.
sabia que no passado eram feitas em menos de um minuto? vai ser rápido.
– você…
– deixe de ser cuzão, venha.

acompanhei o ‘procedimento’, ou que caralho que aquilo seja. o bisturi cortava
a pele, a gordura, os músculos. os vasos foram rapidamente suturados, mesmo
bêbado e sem dormir meu irmão era ágil. chegando ao osso, a serra. foi tudo
rearranjado e suturado fazendo um coto. no outro pé foi igual.

corri depois pra fora e vomitei.

– e se alguém souber?
– que o quê! olhe em volta! num tem porra nenhuma. ele pode gritar o que
for. e mesmo assim, isso também vai ser resolvido.
– mas é desumano… justo você…
– desumano é o caralho. tu nunca te importou com essas coisas. estou num
experimento.
– da idade média ou nazista?
– ah, porra.
– o que você vai fazer?
– o que eu tenho que fazer, ué.
– quero ir embora daqui do sítio.
– vai trair teu sangue, teu merda?? fique um tempo, preciso de você.

bebeu a pinga do gargalo. me ofereceu. neguei.

– fico.
– ótimo, terei que fazer mais umas coisinhas. depois ele estará pronto.
– pronto pra quê?
– pra viver outra vida.
– não entendo, não entendo você. mas vou ficar ao seu lado.
– pra isso é que serve a família.

me abraçou, entramos, eu fui dormir. acordei com estalos, tiros?

– porra, o que você tá fazendo?

meu irmão atirava em latinhas usando o revólver do assassino.

– não tá vendo?
– dentro de casa?
– as latinhas tão na janela, e só faltam 3.
– caralho…
– esse taurus tem 9 tiros…

derrubou as 3 latinhas. abriu o tambor. tirou as cápsulas usadas.

– calibre ridículo, e ainda assim matou mamãe.
– o revólver não matou ninguém. quem matou é seu… experimento.
– quer pra ti o revólver?
– acho que não…
– vou guardar, então. minha arma é a 12.
– o que falta fazer com o cara?
– tu vai ver.

a inocência dos bichos

IV

fiquei a manhã inteira pensando na minha mãe, mas pensando mais em meu
irmão. então ele matou o cara e sumiu com o corpo. justo ele que que ficava
de blablablá sobre direitos humanos e justiça e lei e o cacete. bem, acho que
agora eu tenho um argumento bom pras próximas conversas, se é que ele vai
abordar de novo esses assuntos. bateu na porta do meu quarto pelo meio dia.

– liberaram o corpo da mãe. já tá rumando pro velório. e o enterro vai ser de
manhã.
– vamos pra lá agora, né?
– antes coma alguma coisa, sei que tu deve estar sem fome, mas é melhor.
– vou tomar banho, me arrumar e partimos, pode ser?
– vou te esperar na sala.

– vamos?
– vamos.

carregava uma sacola de feira com garrafas.

– quantas pingas você está levando?
– cinco, das melhores, pra mim e pros amigos. aqui gostamos de beber o morto.

– bora lá.

chegamos no cemitério e fomos pro velório. era antigo e sujo. mamãe não
tinha parentes vivos e não tinha muitos contatos. esperávamos uns vizinhos,
umas poucas amizades, e o pessoal do meu irmão.  eu? ninguém.

– meus pêsames.

era um dos peões das fazendas vizinhas. esses caras faziam uns pequenos
serviços no sítio e mamãe pagava bem melhor que os fazendeiros por uma
jornada.

– obrigado. tome uma pela finada.
– agradecido.

tantos outros chegaram e foi mais ou menos igual. pelo visto, vieram pra
beber. veio o delegado.

– rapazes, meus sentimentos.
– obrigado, doutor.
– ah, trouxe o que prometi.

entregou a meu irmão um embrulho em papel pardo. os cartuchos de 12.

– muito obrigado, vamos beber.

a cada um que chegava, meu irmão servia uma dose e bebia outra. acabaria
desmaiando desse jeito.

– cara, pega leve.
– ah, pelo amor, tu que é o caçula.

chegou uma moça chorando. não acreditei.

– me avisaram no fórum… por que você não me ligou?

era a ex noiva, a quem minha mãe odiava.

– desculpa, não liguei pra muita gente, mesmo.
– que desgraça.
– …
– hoje até eu vou beber.
– …
– sabe, em respeito a você e a ela, se eu for nomeada pra defesa, vou me
declarar suspeita.
– é bastante ético de sua parte.
– eu tento ser.

vaca hipócrita.

e foi uma longa madrugada. lá pelas duas eu comecei a beber também. as
conversas eram tristes, respeitosas. e irritantes. pelas quatro ou cinco
comecei a chorar compulsivamente. foi assim até o sol nascer.

chegou o padre e fez seu serviço. meu irmão não tinha chamado, deve ter
sido o delegado. falou e falou, rezamos e fizemos o sinal da cruz.

– bem, vai sair o féretro.

pegamos nas alças, eu e meu irmão, o delegado, dois peões e a maldita da
defensora, ignorando os costumes. mas eu não iria discutir.

– alguém quer jogar o punhado de terra?

meu irmão se prontificou.

e assim foi o enterro. nos despedimos e pegamos a rural. novamente silêncio.
chegando em casa, fui me encaminhando pro quarto.

– espere, você não vai dormir agora, tenho algo pra mostrar.

fomos até o galpão e entramos.

– !!!

a inocência dos bichos

III

entramos em casa. corremos pro quarto de minha mãe. estava sentada
em frenta à janela. chorava. um cara segurava um revólver contra seu ouvido.
deve ter se assustado. disparou e levantou o revólver na altura do rosto.
meu irmão também disparou, mirando provavelmente na cabeça dele. o tiro
acabou pegando na mão armada. arrancou o revólver, a mão e um pedaço
do pulso. tudo se foi pela  janela. caiu de joelhos, gritou desesperado
segurando o membro que sangrava. meu irmão foi disparar uma segunda
vez. falhou. pegou a arma pelo cano e deu com violência uma coronhada
na têmpora dele. desmaiou. fomos acudir nossa mãe. a carregamos
até a sala. agora eu chorava.

– espera, espera, ESPERA, PORRA!
– cara, a gente tem que correr, se não ela…
– ela morreu.
– puta que pariu! ela num é uma égua, veterinário de merda!
– escuta esse peso… cadáver ‘pesa’ diferente. não há pulso, nem respiração.
deixa ver a cabeça aqui. é, disparo de calibre pequeno, mas trincou e
levantou o crânio aqui, note, pelo ângulo de entrada. caralho, isso saindo
é massa encefálica.

entrei em choque.

– isso não pode ficar assim.
– …
– leva a mãe pro hospital, você tá em condição de dirigir?
– …
– acorda, porra!
– tô, tô sim.
– chegando lá, fala que nós entramos em casa, tinha um cara com um
revólver apontado pra cabeça dela. fala que ele atirou, eu atirei,
ele evadiu, e eu saí atrás dele.
– não estou entendendo nada.
– FALA EXATAMENTE ISSO. o cara matou mamãe e fugiu. eu atirei e deu
de raspão. ele fugiu, eu ajudei a colocar mamãe no carro e fui atrás do cara.
ENTENDIDO?
– mas por que…
– faz o que eu falo, caralho.
– tá.
– vou dar um jeito no cara.
– mas… e a justiça, a vingança, eu não entendo…
– cala a boca e zarpa daqui. é uma hora e pouco até o hospital. tenho que
tomar um monte de providências antes de chegar a polícia.

a hora e meia mais dura de minha vida. cravei as mãos no volante,
mantive os olhos na estrada. chequei no pê-esse atônito.

– meu deus!
– corre aqui!

tentaram colocá-la na maca, mas estava em rigidez.

– meu filho, infelizmente agora é no i-eme-ele.

fiquei sentado esperando por mais de duas horas, até que veio um polícia
falar comigo.

– o senhor é filho da senhora baleada?
– sim.
– meus pêsames.
– obrigado.
– o senhor precisa nos acompanhar até o distrito.
– claro.

fiquei com um pouco de medo e amaldiçoei meu irmão.

– sente aí e conte como foi.

dei a versão do meu irmão.

– você viu a cara do assassino?
– vi. tinha uns 20 anos, cabelo curto com uns desenhos raspados, branco.
– e seu irmão… espera, seu irmão não é veterinário?
– sim, sim, do regimento da polícia montada.
– puta merda, eu conheço seu irmão… isso muda tudo.
– ?
– muda, claro. seu irmão é chegado… se vocês tão falando é certo.
vou com você até sua casa. lá conversaremos.

outras longas horas de minha vida.

– ô, veterinário, se lembra de mim?
– claro, doutor.
– mas que desgraça. meu sinceros pêsames.
– obrigado.
– tu foi atrás do maldito?
– fui e nada, o meu irmão contou do meu tiro?
– sim, que pegou de raspão e o segundo falhou.
– daí fui correr atrás, mas não achei rastro nem nada.
– sua munição deve ser velha.
– é.
– depois eu te consigo alguma.
– agradecido.
– posso ver a cena, sabe como é, minha obrigação…

gelei, poucas vezes tive tanto medo.

– foi aqui na frente da janela?
– foi.
– ela tava aberta?
– sim.
– entendo. e esse sangue?
– de minha mãe.

notei que o sangue do assassino havia sido limpo. se o cara quisesse usar o
luminol, estávamos fodidos. mas estamos no brasil, por sorte.

– pobres rapazes. podem mandar limpar.
– obrigado.
– fica assim, temos a descrição, na primeira oportunidade pegaremos o
vagabundo. mas tu sabe como é difícil.
– entendo. agora te acalme. tome um trago.
– sei que o doutor está em serviço, mas…
– em serviço para um amigo. entendi e aceito.

dessa vez eu também aceitei. nem rasgou a garganta.

– a liberação do corpo…
– vou cuidar pra ti. o necroscópico não vai demorar mais que um dia, visto
a causa mortis óbvia. viu a arma?
– um revólver, acho que 22.
– acha por quê?
– eu conheço armas. e pelo ferimento de minha mãe, um pequeno orifício,
osso trincado aberto em ‘tampa’ e escorrimento posterior de massa
encefálica. provavelmente ziguezagueou triturando o cérebro. coisa de 22 ele-erre.
mas, não sou legista, sou veterinário. mas sei algo de medicina forense.
– jesus… bem, o laudo dirá.
– pois é.
– bem, vou embora. vou cuidar que amanhã mesmo haja a liberação. irei ao
velório.
– agradecidos, doutor.

ele se foi e eu perguntei:

– e?
– vá pro seu quarto, falamos amanhã.

só consegui dormir muito tarde. na verdade nem sei se dormi. ouvi um grito
pavoroso. não sabia se era sonho.

a inocência dos bichos

II

– acorda pra cuspir, vagabundo!
– estou acordado.
– a mamãezinha tá fazendo café pra você.
– já vou, já vou.

– vocês dois voltam pra almoçar??
– não.
– ah.
cara de quem recebe uma punhalada no peito.
– temos muito o que fazer, e além disso vai ter barreado lá no bar do alceu.
– daí vocês dois vão encher a pança de barreado e de pivo…
– exatamente.
cara de quem recebe uma segunda punhalada no peito.

– temos que levar alguma coisa?
– as carteiras e só, vamos é trazer.

subindo na rural, notei o cabo da 12 ao alcance da mão do motorista.

– você ainda com essa 12?

não gostava daquela arma. meu irmão havia pego uma espingarda de caça
que era de nosso avô, serrado os canos, serrado a coronha e feito aquela
coisa.

– é boa. agora que trabalho pra pm ninguém enche o saco falando de porte
ilegal. a lei é para os inimigos, já dizia o getúlio.

um sorriso cínico, com o cinismo que só meu irmão sabia ter.

– bem, vamos que a estrada é longa.

pouco falamos no caminho. não havia som no carro.

– aqui.

meu irmão e o dono do depósito conversaram longamente sobre coisas as
quais eu não tinha a menor idéia. eu escutava e depois ajudaria a carregar.
no fim, nem carregar. os peões fizeram o serviço. com tudo acertado
meu irmão tomou uma pinga com o dono. me ofereceram, neguei, e eles
riram.

– vamos lá pro alceu, que o barreado tá na terra desde ontem. tomamos
cerveja até sair o rancho.

e fomos. era um boteco rústico de tudo na beira de uma estrada de cascalho,
estávamos nós e um pessoal a quem meu irmão cumprimentou com um
aceno meio descontente. pediu cerveja e uma pinga.

– gosto da comida e da bebida, mas não gosto muito da gente.
– não tem delivery?
– seria bem conveniente…

longo silêncio.

– a música também irrita.
– de fato.

chegou um cara e chamou meu irmão pelo nome, deu a mão. sorriram.

– mas tem tempo que tu não passa por aqui!
– pega um copo e senta aí.
– pois então, soube que tu está na polícia…
– sim. veterinário.
– tá cuidando da saúde dos soldados?
– bem observado.
– voltou pro sítio?
– na verdade, sim. mas pegar a estrada diariamente pra trabalhar tem me
dado nos nervos.
– entendo… e a noiva?
– deu em nada… fim.
– mas tu tá bem, né?
– não sou de me abalar, tu bem sabe.
– verdade.

era claro que ele tava mal e que a conversa fluia mal.

– vou pegar mais cerveja e uma pinga.
– traga duas, então.
– teu irmão tá bem, mesmo?
– se ele diz que tá…

nisso chega um nóia pedindo um real. não demos e ele foi embora irritado.

– porra, até aqui??
– como assim ‘até aqui’? o que mais tem agora é nóia por todo o canto.
– o que foi?
– teu irmão espantado do nóia pedir um real…
– ah, ele pensa que aqui é um prado bucólico e idílico.
– ?
– ?
– nóia é uma raça maldita.
– fosse teu parente, seria dependente químico e tratado como simples doente.

virou a dose.

– bem, satisfação em vê-los… mas vou comer em casa, barreado não é pra mim.
– até a vista.
– até.

foi servido o barreado. e comemos e comemos e comemos. bebemos. tivemos
que descansar por mais de uma hora até conseguirmos levantar.

– gostou?
– porra…
– duro é voltar pra casa depois de tudo isso.
– quer que eu guie?
– sou mais eu em coma.

fomos ainda mais calados que na ida. chegando, descarregamos as tralhas
no galpão, quando fomos entrar em casa,  ouvimos uma voz masculina
gritando. e o choro de nossa mãe. meu irmão foi pegar a 12 no carro.

a inocência dos bichos

I

– mas você sabe o que penso, bandido bom é bandido morto.
– o mero emprego do chavão denota burrice, ainda mais quando este exprime
o modo de pensar de gente xucra, chula.
– é muito popular entre os caras pra quem você trabalha.
– eu trabalho pros cavalos da pm, não pros soldados da pm.
– dá no mesmo.
– não, cavalo só caga pelo cu. soldado adora cagar pela boca.
– …
– mas sério. é lamentável. um rapaz no último ano de administração, mesmo
que numa faculdade de merda, falar feito uma dona-de-casa analfabeta. se
fosse do governo federal, eu cassava seu prouni. aliás, não é você que andava
falando que o estado não serve pra nada, só pra roubar os indivíduos… então
porque não abre mão do benefício? tanta gente abriu mão do bolsa família…
– não sei o que uma coisa tem que ver com a outra. eu, usando desse tal
programa assistencialista, apenas estou tentanto recuperar o que é meu…
– todos os infindáveis impostos que você pagou em dois anos de vida
produtiva. como estagiário.
– vai tomar no cu.
– vou tomar uma pinga, quer?
– agh.
– viadinho.
– mas sério, o que tu e a canalhada toda querem é vingança, não justiça.
certo que a justiça do nosso país é uma merda, mas seria muito pior se
fosse institucionalizada a vingança. você deveria ler beccaria.
– quem??
– te digo que é ignorante. e também deveria ler sobre criminologia.
– pra ficar com idéia de comunista?
– sua burrice é ofensiva. quer uma cerveja, liberalzinho de internet?
– ok.

meu irmão era o inteligente, eu era o burro. ele tinha acabado de passar no
concurso pra veterinário do regimento de polícia montada. tinha cursado
federal e tava fazendo mestrado por lá. e eu, um estagiário no último ano
de a-dê-eme numa ‘uniesquina’, segundo meu irmão. eram minhas férias
antes do último semestre e resolvi passar com minha mãe, no sítio. nem sabia
que ele tinha voltado pra casa. a noiva, marília carrazzo, defensora pública,
esquerdista e o pior, paulista, tinha terminado com ele. essas idéias devem
ter um dedo dela, certeza.

– sua cerveja. amanhã tu me acompanha? tenho que comprar umas tralhas
que tão faltando aqui no sítio, lá no depósito agrícola.
– na rural?
– não. de jumentinho feito jesus entrando em jerusalem.
– com a grana que você gastou nessa rural dava pra comprar uma l-200.
– meu carro, meu dinheiro, meu problema.
– você deveria é comprar uma toyota bandeirante. em ponto morto treme
feito você antes da primeira dose.
– piadista de merda. vou tomar outra cana, se quer saber.

e fomos dormir.

no momento amargo foi
em um templo para orar
de joelhos redobrados
murmurando a dor guardada
sendo a fé e sendo o crente

existir por certo dói
intranfere para um par
muito embora queira aos brados
perguntar se foi piada
de mau gosto contra a gente

mas de um crer que já não sói
desditoso foi pro bar
e beber rolar os dados
decidir em qual jornada
embrenhar a sua mente

um castrado brônzeo boi
percebeu-se ao deparar
verdejantes belos prados
e daquilo não quis nada
aquiecer ao que é doente

eis que assim não mais remói
não precisa se amparar
nos passados desejados
nem na luz mais adorada
inacreditavelmente.