O Amor (ou o Cupido) e São Sebastião.

All men are moral.
Only their neighbors are not.
John Steinbeck.

UNO

– cara, seu prédio tem elevador com porta pantográfica…
– sim, deve ser o último do rio de janeiro.
– e aê, de buenas? fez boa viagem?
– sim, sim. ponte aérea, né? se gasta mais tempo no trajeto dentro da cidade.
– foi roubado no táxi?
– nhééé, nada além do normal. mas que apartamento, hein? contratou decorador hippie?
– mais ou menos isso. quando eu fui chamado pra trampar aqui, eu num tava esperando, daí fiquei numa pensão… num rolê sem pretensão, vi um anúncio na frente daqui do prédio, ‘aluga-se apartamento mobiliado, tratar direto com o proprietário’… interfonei e o cara me mandou subir. hippie, velho, gay. de bata e papete. estava tenso, tremia mesmo. começamos a tratar do negócio e ele cada vez mais tenso, querendo acabar logo com aquilo. no fim das contas eu acabei alugando aqui por um valor menor que o de mercado, e fiquei com a mobília e a decoração…
– cê podia ao menos ter tirado as cortinas, azul com abóbora dói na vista.
– deixa essa bosta aí. coitado, até por respeito ao velho.
– ?
– uns quatro meses depois de vir pra cá me toca o interfone e é uma mulher se dizendo irmã do proprietário, mandei subir. era uma peruona, grande, espalhafatosa e natural que nem refresco de baygon. numa voz embargada, falsamente embargada, disse que o irmão tinha morrido… fiquei de cara. ele tinha ido morar em paris depois de me alugar o apê. e em paris morreu, afogado no sena. acharam o corpo boiando. suspeitavam de suicídio. ofereci água, café, bebida – esse oferecimento de bebida parece que a deixou meio ofendida – e ela finalmente ‘se recuperou’. disse que era a única herdeira, mas que eu não me preocupasse porque o contrato seria respeitado até o fim, embora ela quisesse no fim discutir o valor do aluguel. disse que o momento de discutir seria no término do prazo contratual. ela me perguntou se eu era amigo do irmão, disse que não, que tinha visto o anúncio por coincidência
e fechara o negócio. ‘mas por que então’as coisas do meu irmão estão aqui do mesmo jeito de quando ele vivia aqui?’. isso me irritou, ela tava insinuando alguma coisa. disse, irritado, que tinha alugado um apartamento mobiliado, ‘de porteira fechada’ e que a decoração do cara não me incomodava em nada. falei até que se ela quisesse poderia levar tudo, fora a mobília mais essencial. fez cara de asco e disse que se eu quisesse, que ficasse pra mim, ela não tinha o menor interesse…
– ela devia ser bem nojentona.
– bota nojentona nisso, acho que tava é meio que comemorando de ter se livrado do viado.
– bem, tem cerveja?
– claro, tem um fardinho e meio, meia garrafa de uísque e água com gás. é tudo o que tenho
de ‘mantimentos’.
– manero.
(…)
– e qual é a de morar aqui no rio?
– vidão. moro num lugar bacana, vou andando pro trabalho, não tenho carro, se quero ir mais lonje uso bike ou táxi. não sinto falta de lá, não.
– mas e os cariocas? não enchem o saco?
– nem, só quando você conversa com eles.
– hahahahahaha, seu escroto.
– falando sério, nenhum carioca te enche o saco a menos que você fique dando umas de ‘pauliXta’. ficando na sua e sendo de boa com os caras, sem problema. tem gente boa em qualquer lugar do mundo, se pá até em curitiba.
– e as mina?
– putz nem me fale, mano… tava meio que namorando uma minazinha aê. bonitinha, cara.conheci no bukowski, um bar de rock daqui. bebemos pra caraio, ficamos falando merda, nos pegamos, e quando a gente foi ver tava trepando que nem louco aqui.
– da hora…
– foi mesmo. daí eu liguei pra mina no dia seguinte e ela falou de irmos numa exposição.maneiro, fomos, depois bebemos só um choppinho e voltamos pra cá, pra transar. na quarta da mesma semana ela me ligou e me chamou prum vernissage. achei estranho, mas de boa, fui, ficamos lá… ela meio que empolgada demais com as pessoas, fazendo muitas caras e tal, mas depois viemos pra cá, eu cozinhei, bebemos vinho e mais sexo. só na sexta quando ela me chamou pruma récita que eu vi que tava numa cilada: a mina era dessas culturete insuportável que nem as da augusta/roosevelt, só que carioca. e mestranda em cinema.
– putz… daí tu caiu fora?
– nem, porque eu tava meio que já gostando dela, o sexo era animal. resolvi segurar as pontas.besteira, a coisa foi ficando cada vez mais grave. sabe como é culturete, né? ela é uma espécie de artista sem talento que vive de ficar se esfregando em quem é cult ou conhecido. é um vampiro. não sei porque ela pirou na minha, porque eu trabalho com cultura? mas eu trabalho nas oito horas por dia da minha jornada! sou profissional, porra! enfim, um dia ela me viu no computador vendo ‘malvados’… mano, ela se transfigurou. os olhos brilharam, ela falou que era amiga do andré dahmer, que ia me apresentar pra ele. véi. eu expliquei que não, de boa, queria ficar na minha. ela disse que eu era muito tímido. bem, dois dias depois ganhei essa gravura aqui, original do dahmer.
– puta que pariu… uma coisa é gostar de malvados, outra…
– é isso aí. bem, mas até aí foda-se, a gravura é maneira. custa caro no site, mas como ela é a ‘amigona’, deve ter saído de graça.
– hahaha.
– bem, o tempo foi passando, eu me enchendo. um dia veio um amiguinho dela aqui e me ofereceu mil reais por esse quadro aí atrás de você.
– é um quadro bacana, é pintado mas tem umas paradas de colagem, a mina pintada é muito expressiva.
– é. foi pintado pelo meu finado senhorio. descobri que ele era um pintor até famosinho. e pelo olhar do filho da puta do amigo dela, acho que deve valer pelo menos cinco mil.
– se a peruona soubesse…
– aquela vaca tem reprodução do romero britto na parede do apê na barra, com certeza. ela nem deve ter se ligado que aqui tinha um quadro ou que o irmão dela era pintor. era só a bicha que envergonhava a família.
– bem, mas o que deu com a mina?
– um dia veio um amigo dela aqui, como eu num tava de muito bom humor, deixei os dois conversando na sala e fui ler e beber uísque na cozinha. mano, o cara ficou falando 3 horas sobre o banksy. queria matar os dois. quando ele foi embora cheguei pra ela e disse que não poderia levar em consideração um animal que monologa 3 horas sobre um artista plástico e muito menos ter qualquer coisa com quem escuta essa conversa. aí ela foi embora e não ligou nunca mais.
– menos mal, né?
– menos mal mas meio mau, ela tinha seu lado bom…
– larga de ser hipócrita, você só gostava do sexo.
– isso não pode ser o lado bom de alguém?
– … fumar um?
– claro.
(…)
– cê num devia de trazer fumo no avião, é pala.
– vôo doméstico? nem… e eu não ia deixar esse fumo lá embolorando, é bom e foi caro.
– o fumo aqui não é muito bom, mas é barato… o pó é bom E barato, por isso tô fora. e tem bala, também. mas disso eu não gosto.
– o amor não combina com você, hahaha.
– nunca combinou, hahaha.
– e esse som aí? funciona?
– porra, perfeito! a agulha tá nova. mas só tem as droga dos discos do véi bicha e uma fita cassete – sim, fita cassete – que a mina lá me gravou… só tem marcelo camelo, que por acaso também é amigão dela.
– deixa ver aqui. barbra streisand… NATAL COM RAY CONNIFF! hahahaha, jesus. ah, charles aznavour. isso dá pra ouvir.
– ah, véi, dois paulista num apê em copa, fumando e ouvindo aznavour é deprê demais…
– então se liga nesse som…

[barry manilow: at the copa, copacabana…]

– HAHAHAHAHAHA
– agora sim…
– e a putada?
– bem, você tá em copa, copacabana, mermão… tem de tudo. se quiser um traveco, uma anã…
– umA travecA. seu cis-heteronormativo!
– sério, brow??
– claro que não! hahahahahaha.
– bem… umA travecA… er… meia anã, então?
– hahahahahaha, seu escroto.
– mas aí, a lapa é mais divertida de noite que aqui. e menos treta.
– só… mas tô perguntando mais de onda, tô meio de boa de putaria.
– sei.
– terminando essas latinha e gente desce e dá um rolê, só pra descontrair.
– acho que tô meio de boa, e se a gente pedir pizza?
– pizza aqui no rio?
– tá, a gente vai num bar e come porção de lá, mesmo.
– caro, mas é bem melhor
– a gente xaveca umas gringa ou umas idosa pra pagar pra gente!
– hahahahahahaha, mas é um filho da puta…

DUE

– issaê é tudo muito legal, mas, papo reto? nem. se tu fica aí vacilando com essas parada por aí, no carro, tu vai perder. katana, nunchaku, shuriken, soco inglês… é tudo arma branca e dependendo tu vai ter que pagar um acerto pro polícia, fácil. eu ando só com um cano de ferro no carro, desses comum. só. outro dia eu tava loucaço, tinha bebido um monte e até tomado uma bala que eu ganhei duma biscate. os polícia me pararam, eu tava fudido. mas depois de muita conversa, acertei em 200 pela bebedeira. o cano? olharam dentro pra ver se não tinha bagulho e me devolveram. se fosse um nunchaku, uma tonfas, um bastão retrátil,
essas tuas parada aí, eu tinha perdido e ia gastar mais grana ainda.
– cano de ferro?? qualé? isso lá é arma?
– ô, arrombado, aqui é ninjutsu, tá ligado? um cano de ferro na minha mão você só me ganha se tiver com pistola, e mesmo assim num sei não.
– tá bom então, zé marrento. e que papo é esse de bala, tá ‘financiando o tráfico’ agora?
– tomar no seu cu, ô, eu ganhei da biscate. e isso de bala é coisa que sai pouco e não financia nada. o que financia é essas porra que o povo compra direto: maconha e pó. essas que viciam mesmo. tudo esses arrobado dos humanistas são maconheiros e trabalham pro tráfico. a real é essa.
– fica nessas filosofia, mas nem ajuda a pegar os vagabundo mais…
– TOMAR NO TEU CU, ARROMBADO. só num fui semana passada porque eu tive
que ir praquela bosta de são paulo.
– calma, vacilão, tô de zuá. tu devia ter visto, pegamo o maluco e moemo de pau. tava fumando pedra na rua. nem entendeu direito o que rolou. e o que deu lá na sua parada?
– nada, cesta básica e só. se fosse aqui, nem isso tinha dado. mas paulista é cuzão.
– e viado.
– principalmente viado.
– tem algum esquema pra hoje? as bee-atch?
– nem sei, depois do treino a gente vê.
– tem o lance lá, aquele lá…
– caído. só tem preto favelado naquela bosta, e pagano de fodalhão. sem contar os paraíba.
– sério?
– sério, morreu. só se for pra arrumar porrada.
– porra… onde tem umas vadia, uma fodinha?
– no xvideos.
– CHUPA MEU CARALHO, PORRA.
– hahahahahahahaha. aí, tem esquema novo, sim.
– e qual?
– vou confirmar, mas só pega mesmo de quinta.
– ah, desencana, tava pensando pra hoje.
– vai na zona. terça? só na zona. nem baile no morro…
– baile no morro é teu cu. e aí, vai ficar na punheta?
– treino, mermão. não vou chapar de terça.
– otário.
– otário é tu!
– então vai tomar no meio do seu cu que eu tô indo embora. a gente se vê na academia.
– falou.
(…)
– supino com 100 quilo? aí, fala pra caraio, mas é um frango, hein?
– falou o cara que é 100% winstrol.
– até sou, mas pego o dobro.
– só não pega as pica no seu cu.
– aí, costinha, vai ter a festa ou nem?
– nem. me deixa, porra!
– otário. otário do caralho.
– serião, aí. segura tua onda. depois de amanhã a gente se entende.
– tu num era assim.
– não, tu que num era assim. treina aí, ó, porra.
– te falar, viu.
– e os outros cara?
– tudo mais peidão que tu.
– porra, bróder, me deixa…
– já sei, virou viado.
– CHEGA. QUEM É VIADO, PORRA?!
– ow, ow, ow, se acalma aí.
– caralho, bróder, fica na tua.
– tá.
– …
– viado.
– aí, mermão. chega. onde você quer ir hoje?
– é tu que sabe!
– puta que pariu, viu…
– partiu!
– é. mermão. ‘já é’.

TRE

– ê, laiá. não nega a raça mesmo, hein? como todo bom paulistano você também se acha chef de cozinha…
– se foder, você! hahahaha.
– que teremos no… menÜ, amÜgue?
– arroz negro com lula na própria tinta.
– hum, legal. se eu soubesse que teríamos um jantar romântico teria trazido flores…
– ah, que delicado… se foder, porra!
– bem, e o que a gente vai beber?
– vinho, claro. esse vinho verde português aqui, ‘casal garcia’.
– pareceríamos cultos e sofisticados. se a gente não fosse beber itaipava depois.
– então, mano, eu tava pensando… você não trampa amanhã, né?
– nem amanhã e nem sábado, mas domingo tenho umas parada pra fazer.
– lembra dos tempos de faculdade?
– mais do que eu gostaria…
– então, a gente varava noites e noites na rua. hoje a gente bebe itaipava e fuma até uma da manhã e vamos dormir.
– estamos velhos, ué. aceite.
– estamos velhos, não mortos.
– a gente nunca pegou muita mulher nos tempos de faculdade, né? sendo bem sinceros…
– não. a gente ficava louco demais pra isso.
– nossa, toda a vez a gente alucinava…
– escuta, e se a gente saísse hoje, sem rumo, de bar em bar, até amanhecer?
– olha, talvez, hein…
– vamu’lá, cara. eu só fico aqui até sábado…
– …
– eu tenho um argumento aqui no bolso.
– ?
– …
– !!!
– CARALHO, e você tava escondendo?
– escondendo, não, guardando pra hora certa.
– ah, agora deu uma animada, hahaha. agora deu uma bela animada.
– beleza, a gente come e depois toma o doce de sobremesa. aí caímos na noite.
– na ‘naite’, hahaha.
– vamos no bukowski?
– nem, né? nada a ver, vamos sair andando, tomar umas nos botecos, olhar as coisas.
– pra isso o doce é bom.
– tá pronta essa gororoba preta aí?
– tá quase…
(…)
– olha, até que você cozinha bem…
– eu sei disso.
– além de mei viado, é arrogante.
– bem, vamos terminar a garrafa de vinho pra fazer a digestão. depois a gente toma.
– mas vamos logo.
– a gente espera bater aqui ou na rua?
– ah, melhor na rua, em algum boteco…
(…)
(…)
(…)
– PUTA QUE PARIU!
– HAHAHAHAHAHA.
– essa foi a melhor noite dos últimos 10 anos!
– cara… cara… cara…
– não acredito, caralho.
– HAHAHAHAHAHA.
– HAHAHAHAHAHA.
– até o por do sol tava show, cara.
– hahaha, você quase aplaudiu!
– e você, você quase chorou!!
– meu pulso tá alterado até agora, pega pra ver…
– hahahaha, cara, tua mão tá gelada.
– meu, notei agora, você perdeu suas calças?
– nem, pára, eu saí de sunga.
– não saiu, não.
– Ê, CARALHO! deve ter ficado no puteiro! melhor ideia ter ido lá!
– mano, me dá um abraço!
– claro.
– você é um melhor amigo que um cara pode ter.
– cara, você é foda, cara, assim eu até choro…
– aí, véi, espero que…

[TUUUD]

QUATTRO

– noite de merda, hein?
– a culpa é minha??
– tu disse que a parada era certeira…
– e era, ué.
– mermão, papo reto, era pra nóis ter morrido
– eu ia lá adivinhar que o tiozão era da PF?
– caraio, escapamo por pouco.
– aquele tiro que o cara deu tá fazendo meu ouvido zunir até agora…
– o meu também tá zunindo, mas foi por causa do telefone que me deram.
– as coronhadas nos rins também tão doendo.
– escapamos de tomar choque, os caras tavam desencapando os fios, já.
– mas tamo vivo!
– os dois.
– se tu morresse, aí, eu ia ficar malzão.
– aí, mermão, digo o mesmo.
– malzão, mesmo.
– eu também.
– aí…
– aí…

[beijo]
[entra um bardo com alaúde]

palavras contam menos do que olhares
e o gesto é muito mais que verdadeiro
contém em si ao universo inteiro
formando aleatoriamente os pares

um beijo entre dois homens musculares
flechada de um cupido traiçoeiro
que pode dar o fim mais derradeiro
a histórias pouco mais do que vulgares

histórias que ouvimos pelos bares
histórias do viver do brasileiro
de espírito cruel e carniçeiro
porém sempre velado em seus pesares

enfim, somos o povo cordial
enfim, jamais fizemos nenhum mal.

[sai o bardo do alaúde]

– MERMÃO, POR QUE TU FEZ ISSO?
– …
– MERMÃO!
– …
– MERMÃO!
– …

[empurrão]
[sai com carro cantando pneu]

FINALE

[notícia de internet]

ASSASSINADO CASAL GAY NO CALÇADÃO DE COPACABANA

Um casal homossexual foi assassinado a golpes de barra de ferro no calçadão de Copacabana hoje pela manhã. O agressor, visivelmente transtornado, foi contido por policiais militaras com o uso de spray de pimenta. Apenas gritava: “Malditos gays! Malditos gays! Morrerão todos!”. As vítimas foram encaminhadas ao tratamento hospitalar, mas não sobreviveram aos ferimentos. Segundo o delegado responsável, o agressor responderá por homicídio doloso (quando há intenção de matar) e duplamente qualificado, pois conforme o delegado: “Trata-se de um crime de ódio, o que implica no qualificativo de motivo torpe. E também houve uso de meio cruel, que é a barra de ferro, daí o segundo qualificativo”. O acusado tem diversas passagens pela polícia por agressão. Procurada por nossa reportagem, a portaria do prédio onde o casal morava disse que os dois eram “muito discretos e muito distintos”. As famílias não foram localizadas.

[COMENTÁRIOS]

Mereceram. Plena manhã de dia útil ficam de pouca vergonha na frente de crianças, de famílias. Uma hora alguém iria dar o troco. E a imprensa gayzista fica colocando esses vagabundos, degenerados, como sendo vítimas. Vítima são as crianças e idosos e gente de bem que tem que conviver com a pouca vergonha. Vivemos uma ditadura gay, implementada pelo marxismo cultural do Foro de São Paulo.

(…)

VIADOS SE FUDERO, KKKKKKK

(…)

FORA LULLA!

[conversa de telefone]

sim, sim. é coisa horrível, mesmo. a família levou as coisas dele? ah, tá. então só sobrou a tralhado meu irmão? tá. olha, eu vou colocar esse apartamento pra vender. sério, não, não. alugar não interessa. eu preciso comprar um apartamento em miami e o valor desse aí paga mais da metade de um apartamento bom lá. sei, absurdo, né? as coisas? sei lá, joga fora. doar? não melhor, não. vão falar que eu tô dando lixo pros pobres. ah, que se dane, faça o que preferir? quadro?? que quadro
o que! meu irmão era um fracassado, joga tudo no lixo. tá. tá. tchau.

[notícia de jornal na frança. não saiu nota ou tradução para o português]

OBRA DE PINTOR BRASILEIRO ENCONTRADO MORTO TEM SENSÍVEL VALORIZAÇÃO.

A obra do pintor brasileiro encontrado morto no Sena teve grande alta em seu preço. Desconhecido do grande público, o artista era bem cotado entre colecionadores por uma sequência de quadros do início dos anos 1980, chamada de “A Série da Psiquê Autônoma”, que mesclava colagem, pop-art e pintura acadêmica. Sua companheira de longa data e modelo da série disse que o pintor andava depressivo e que até voltara para Paris, sendo que estava morando com ela antes do suicídio. Cada tela desta série está avaliada em cerca de 150 mil euros. Uma tela em especial, provavelmente perdida no Brasil, tem valor estimado em 200 mil euros.