a inocência dos bichos

por danielkamykovas

quando o Amor se transforma num comando,
o Ódio pode transformar-se num prazer.
charles bukowski.

 

I

– mas você sabe o que penso, bandido bom é bandido morto.
– o mero emprego do chavão denota burrice, ainda mais quando este exprime
o modo de pensar de gente xucra, chula.
– é muito popular entre os caras pra quem você trabalha.
– eu trabalho pros cavalos da pm, não pros soldados da pm.
– dá no mesmo.
– não, cavalo só caga pelo cu. soldado adora cagar pela boca.
– …
– mas sério. é lamentável. um rapaz no último ano de administração, mesmo
que numa faculdade de merda, falar feito uma dona-de-casa analfabeta. se
fosse do governo federal, eu cassava seu prouni. aliás, não é você que andava
falando que o estado não serve pra nada, só pra roubar os indivíduos… então
porque não abre mão do benefício? tanta gente abriu mão do bolsa família…
– não sei o que uma coisa tem que ver com a outra. eu, usando desse tal
programa assistencialista, apenas estou tentanto recuperar o que é meu…
– todos os infindáveis impostos que você pagou em dois anos de vida
produtiva. como estagiário.
– vai tomar no cu.
– vou tomar uma pinga, quer?
– agh.
– viadinho.
– mas sério, o que tu e a canalhada toda querem é vingança, não justiça.
certo que a justiça do nosso país é uma merda, mas seria muito pior se
fosse institucionalizada a vingança. você deveria ler beccaria.
– quem??
– te digo que é ignorante. e também deveria ler sobre criminologia.
– pra ficar com idéia de comunista?
– sua burrice é ofensiva. quer uma cerveja, liberalzinho de internet?
– ok.

meu irmão era o inteligente, eu era o burro. ele tinha acabado de passar no
concurso pra veterinário do regimento de polícia montada. tinha cursado
federal e tava fazendo mestrado por lá. e eu, um estagiário no último ano
de a-dê-eme numa ‘uniesquina’, segundo meu irmão. eram minhas férias
antes do último semestre e resolvi passar com minha mãe, no sítio. nem sabia
que ele tinha voltado pra casa. a noiva, marília carrazzo, defensora pública,
esquerdista e o pior, paulista, tinha terminado com ele. essas idéias devem
ter um dedo dela, certeza.

– sua cerveja. amanhã tu me acompanha? tenho que comprar umas tralhas
que tão faltando aqui no sítio, lá no depósito agrícola.
– na rural?
– não. de jumentinho feito jesus entrando em jerusalem.
– com a grana que você gastou nessa rural dava pra comprar uma l-200.
– meu carro, meu dinheiro, meu problema.
– você deveria é comprar uma toyota bandeirante. em ponto morto treme
feito você antes da primeira dose.
– piadista de merda. vou tomar outra cana, se quer saber.

e fomos dormir.

II

– acorda pra cuspir, vagabundo!
– estou acordado.
– a mamãezinha tá fazendo café pra você.
– já vou, já vou.

– vocês dois voltam pra almoçar??
– não.
– ah.
cara de quem recebe uma punhalada no peito.
– temos muito o que fazer, e além disso vai ter barreado lá no bar do alceu.
– daí vocês dois vão encher a pança de barreado e de pivo…
– exatamente.
cara de quem recebe uma segunda punhalada no peito.

– temos que levar alguma coisa?
– as carteiras e só, vamos é trazer.

subindo na rural, notei o cabo da 12 ao alcance da mão do motorista.

– você ainda com essa 12?

não gostava daquela arma. meu irmão havia pego uma espingarda de caça
que era de nosso avô, serrado os canos, serrado a coronha e feito aquela
coisa.

– é boa. agora que trabalho pra pm ninguém enche o saco falando de porte
ilegal. a lei é para os inimigos, já dizia o getúlio.

um sorriso cínico, com o cinismo que só meu irmão sabia ter.

– bem, vamos que a estrada é longa.

pouco falamos no caminho. não havia som no carro.

– aqui.

meu irmão e o dono do depósito conversaram longamente sobre coisas as
quais eu não tinha a menor idéia. eu escutava e depois ajudaria a carregar.
no fim, nem carregar. os peões fizeram o serviço. com tudo acertado
meu irmão tomou uma pinga com o dono. me ofereceram, neguei, e eles
riram.

– vamos lá pro alceu, que o barreado tá na terra desde ontem. tomamos
cerveja até sair o rancho.

e fomos. era um boteco rústico de tudo na beira de uma estrada de cascalho,
estávamos nós e um pessoal a quem meu irmão cumprimentou com um
aceno meio descontente. pediu cerveja e uma pinga.

– gosto da comida e da bebida, mas não gosto muito da gente.
– não tem delivery?
– seria bem conveniente…

longo silêncio.

– a música também irrita.
– de fato.

chegou um cara e chamou meu irmão pelo nome, deu a mão. sorriram.

– mas tem tempo que tu não passa por aqui!
– pega um copo e senta aí.
– pois então, soube que tu está na polícia…
– sim. veterinário.
– tá cuidando da saúde dos soldados?
– bem observado.
– voltou pro sítio?
– na verdade, sim. mas pegar a estrada diariamente pra trabalhar tem me
dado nos nervos.
– entendo… e a noiva?
– deu em nada… fim.
– mas tu tá bem, né?
– não sou de me abalar, tu bem sabe.
– verdade.

era claro que ele tava mal e que a conversa fluia mal.

– vou pegar mais cerveja e uma pinga.
– traga duas, então.
– teu irmão tá bem, mesmo?
– se ele diz que tá…

nisso chega um nóia pedindo um real. não demos e ele foi embora irritado.

– porra, até aqui??
– como assim ‘até aqui’? o que mais tem agora é nóia por todo o canto.
– o que foi?
– teu irmão espantado do nóia pedir um real…
– ah, ele pensa que aqui é um prado bucólico e idílico.
– ?
– ?
– nóia é uma raça maldita.
– fosse teu parente, seria dependente químico e tratado como simples doente.

virou a dose.

– bem, satisfação em vê-los… mas vou comer em casa, barreado não é pra mim.
– até a vista.
– até.

foi servido o barreado. e comemos e comemos e comemos. bebemos. tivemos
que descansar por mais de uma hora até conseguirmos levantar.

– gostou?
– porra…
– duro é voltar pra casa depois de tudo isso.
– quer que eu guie?
– sou mais eu em coma.

fomos ainda mais calados que na ida. chegando, descarregamos as tralhas
no galpão, quando fomos entrar em casa,  ouvimos uma voz masculina
gritando. e o choro de nossa mãe. meu irmão foi pegar a 12 no carro.

III

entramos em casa. corremos pro quarto de minha mãe. estava sentada
em frenta à janela. chorava. um cara segurava um revólver contra seu ouvido.
deve ter se assustado. disparou e levantou o revólver na altura do rosto.
meu irmão também disparou, mirando provavelmente na cabeça dele. o tiro
acabou pegando na mão armada. arrancou o revólver, a mão e um pedaço
do pulso. tudo se foi pela  janela. caiu de joelhos, gritou desesperado
segurando o membro que sangrava. meu irmão foi disparar uma segunda
vez. falhou. pegou a arma pelo cano e deu com violência uma coronhada
na têmpora dele. desmaiou. fomos acudir nossa mãe. a carregamos
até a sala. agora eu chorava.

– espera, espera, ESPERA, PORRA!
– cara, a gente tem que correr, se não ela…
– ela morreu.
– puta que pariu! ela num é uma égua, veterinário de merda!
– escuta… esse peso… cadáver ‘pesa’ diferente. não há pulso, nem respiração.
deixa ver a cabeça aqui. é, disparo de calibre pequeno, mas trincou e
levantou o crânio aqui, note, pelo ângulo de entrada. caralho, isso saindo
é massa encefálica.

entrei em choque.

– isso não pode ficar assim.
– …
– leva a mãe pro hospital, você tá em condição de dirigir?
– …
– acorda, porra!
– tô, tô sim.
– chegando lá, fala que nós entramos em casa, tinha um cara com um
revólver apontado pra cabeça dela. fala que ele atirou, eu atirei,
ele evadiu, e eu saí atrás dele.
– não estou entendendo nada.
– FALA EXATAMENTE ISSO. o cara matou mamãe e fugiu. eu atirei e deu
de raspão. ele fugiu, eu ajudei a colocar mamãe no carro e fui atrás do cara.
ENTENDIDO?
– mas por que…
– faz o que eu falo, caralho.
– tá.
– vou dar um jeito no cara.
– mas… e a justiça, a vingança, eu não entendo…
– cala a boca e zarpa daqui. é uma hora e pouco até o hospital. tenho que
tomar um monte de providências antes de chegar a polícia.

a hora e meia mais dura de minha vida. cravei as mãos no volante,
mantive os olhos na estrada. chequei no pê-esse atônito.

– meu deus!
– corre aqui!

tentaram colocá-la na maca, mas estava em rigidez.

– meu filho, infelizmente agora é no i-eme-ele.

fiquei sentado esperando por mais de duas horas, até que veio um polícia
falar comigo.

– o senhor é filho da senhora baleada?
– sim.
– meus pêsames.
– obrigado.
– o senhor precisa nos acompanhar até o distrito.
– claro.

fiquei com um pouco de medo e amaldiçoei meu irmão.

– sente aí e conte como foi.

dei a versão do meu irmão.

– você viu a cara do assassino?
– vi. tinha uns 20 anos, cabelo curto com uns desenhos raspados, branco.
– e seu irmão… espera, seu irmão não é veterinário?
– sim, sim, do regimento da polícia montada.
– puta merda, eu conheço seu irmão… isso muda tudo.
– ?
– muda, claro. seu irmão é chegado… se vocês tão falando é certo.
vou com você até sua casa. lá conversaremos.

outras longas horas de minha vida.

– ô, veterinário, se lembra de mim?
– claro, doutor.
– mas que desgraça. meu sinceros pêsames.
– obrigado.
– tu foi atrás do maldito?
– fui e nada, o meu irmão contou do meu tiro?
– sim, que pegou de raspão e o segundo falhou.
– daí fui correr atrás, mas não achei rastro nem nada.
– sua munição deve ser velha.
– é.
– depois eu te consigo alguma.
– agradecido.
– posso ver a cena, sabe como é, minha obrigação…

gelei, poucas vezes tive tanto medo.

– foi aqui na frente da janela?
– foi.
– ela tava aberta?
– sim.
– entendo. e esse sangue?
– de minha mãe.

notei que o sangue do assassino havia sido limpo. se o cara quisesse usar o
luminol, estávamos fodidos. mas estamos no brasil, por sorte.

– pobres rapazes. podem mandar limpar.
– obrigado.
– fica assim, temos a descrição, na primeira oportunidade pegaremos o
vagabundo. mas tu sabe como é difícil.
– entendo. agora te acalme. tome um trago.
– sei que o doutor está em serviço, mas…
– em serviço para um amigo. entendi e aceito.

dessa vez eu também aceitei. nem rasgou a garganta.

– a liberação do corpo…
– vou cuidar pra ti. o necroscópico não vai demorar mais que um dia, visto
a causa mortis óbvia. viu a arma?
– um revólver, acho que 22.
– acha por quê?
– eu conheço armas. e pelo ferimento de minha mãe, um pequeno orifício,
osso trincado aberto em ‘tampa’ e escorrimento posterior de massa
encefálica. provavelmente ziguezagueou triturando o cérebro. coisa de 22 ele-erre.
mas, não sou legista, sou veterinário. mas sei algo de medicina forense.
– jesus… bem, o laudo dirá.
– pois é.
– bem, vou embora. vou cuidar que amanhã mesmo haja a liberação. irei ao
velório.
– agradecidos, doutor.

ele se foi e eu perguntei:

– e?
– vá pro seu quarto, falamos amanhã.

só consegui dormir muito tarde. na verdade nem sei se dormi. ouvi um grito
pavoroso. não sabia se era sonho.

IV

fiquei a manhã inteira pensando na minha mãe, mas pensando mais em meu
irmão. então ele matou o cara e sumiu com o corpo. justo ele que que ficava
de blablablá sobre direitos humanos e justiça e lei e o cacete. bem, acho que
agora eu tenho um argumento bom pras próximas conversas, se é que ele vai
abordar de novo esses assuntos. bateu na porta do meu quarto pelo meio dia.

– liberaram o corpo da mãe. já tá rumando pro velório. e o enterro vai ser de
manhã.
– vamos pra lá agora, né?
– antes coma alguma coisa, sei que tu deve estar sem fome, mas é melhor.
– vou tomar banho, me arrumar e partimos, pode ser?
– vou te esperar na sala.

– vamos?
– vamos.

carregava uma sacola de feira com garrafas.

– quantas pingas você está levando?
– cinco, das melhores, pra mim e pros amigos. aqui gostamos de beber o morto.

– bora lá.

chegamos no cemitério e fomos pro velório. era antigo e sujo. mamãe não
tinha parentes vivos e não tinha muitos contatos. esperávamos uns vizinhos,
umas poucas amizades, e o pessoal do meu irmão.  eu? ninguém.

– meus pêsames.

era um dos peões das fazendas vizinhas. esses caras faziam uns pequenos
serviços no sítio e mamãe pagava bem melhor que os fazendeiros por uma
jornada.

– obrigado. tome uma pela finada.
– agradecido.

tantos outros chegaram e foi mais ou menos igual. pelo visto, vieram pra
beber. veio o delegado.

– rapazes, meus sentimentos.
– obrigado, doutor.
– ah, trouxe o que prometi.

entregou a meu irmão um embrulho em papel pardo. os cartuchos de 12.

– muito obrigado, vamos beber.

a cada um que chegava, meu irmão servia uma dose e bebia outra. acabaria
desmaiando desse jeito.

– cara, pega leve.
– ah, pelo amor, tu que é o caçula.

chegou uma moça chorando. não acreditei.

– me avisaram no fórum… por que você não me ligou?

era a ex noiva, a quem minha mãe odiava.

– desculpa, não liguei pra muita gente, mesmo.
– que desgraça.
– …
– hoje até eu vou beber.
– …
– sabe, em respeito a você e a ela, se eu for nomeada pra defesa, vou me
declarar suspeita.
– é bastante ético de sua parte.
– eu tento ser.

vaca hipócrita.

e foi uma longa madrugada. lá pelas duas eu comecei a beber também. as
conversas eram tristes, respeitosas. e irritantes. pelas quatro ou cinco
comecei a chorar compulsivamente. foi assim até o sol nascer.

chegou o padre e fez seu serviço. meu irmão não tinha chamado, deve ter
sido o delegado. falou e falou, rezamos e fizemos o sinal da cruz.

– bem, vai sair o féretro.

pegamos nas alças, eu e meu irmão, o delegado, dois peões e a maldita da
defensora, ignorando os costumes. mas eu não iria discutir.

– alguém quer jogar o punhado de terra?

meu irmão se prontificou.

e assim foi o enterro. nos despedimos e pegamos a rural. novamente silêncio.
chegando em casa, fui me encaminhando pro quarto.

– espere, você não vai dormir agora, tenho algo pra mostrar.

fomos até o galpão e entramos.

– !!!

V

o assassino de minha mãe.

– por que essa cara?? eu o mataria e sumiria com o corpo, dissolveria em
soda, mas isso me incomodou. poderia entregar pra polícia, mas por quê?
o sistema é falido. resolvi tratar da ferida, ficou bom. achei que o tratamento
poderia ser mais extenso. realmente resolver a situação dele e da sociedade.
aí eu amputei a outra mão e decidi fazer outras ‘intervenções’. como cientista
e também como artista, afinal a arte nunca pode ser totalmente divorciada
da ciência.

estava em uma cama improvisada em uma bancada, atado. recebia soro.

– há de ver, há de ver.

tirada a mordaça, estava grunhindo.

– aqui é hospital? estou doente, doente, doente…
– sim, é hospital. vamos tratar direitinho de você.
– ah… não parece hospital.
– aqui, seu remédio.

aplicou uma injeção.

– quetamina… dá uma viagem boa em menor quantidade. quer experimentar?
– er… melhor não…
– não é o mais indicado aqui, mas é o que tinha.

apagou de novo.

– bem, agora vou amputar os dois pés, quer ajudar?

tive uma violenta queda de pressão, fiquei branco.

– frouxo… é uma simples amputação. vou fazer isso antes de dormir.
sabia que no passado eram feitas em menos de um minuto? vai ser rápido.
– você…
– deixe de ser cuzão, venha.

acompanhei o ‘procedimento’, ou que caralho que aquilo seja. o bisturi cortava
a pele, a gordura, os músculos. os vasos foram rapidamente suturados, mesmo
bêbado e sem dormir meu irmão era ágil. chegando ao osso, a serra. foi tudo
rearranjado e suturado fazendo um coto. no outro pé foi igual.

corri depois pra fora e vomitei.

– e se alguém souber?
– que o quê! olhe em volta! num tem porra nenhuma. ele pode gritar o que
for. e mesmo assim, isso também vai ser resolvido.
– mas é desumano… justo você…
– desumano é o caralho. tu nunca te importou com essas coisas. estou num
experimento.
– da idade média ou nazista?
– ah, porra.
– o que você vai fazer?
– o que eu tenho que fazer, ué.
– quero ir embora daqui do sítio.
– vai trair teu sangue, teu merda?? fique um tempo, preciso de você.

bebeu a pinga do gargalo. me ofereceu. neguei.

– fico.
– ótimo, terei que fazer mais umas coisinhas. depois ele estará pronto.
– pronto pra quê?
– pra viver outra vida.
– não entendo, não entendo você. mas vou ficar ao seu lado.
– pra isso é que serve a família.

me abraçou, entramos, eu fui dormir. acordei com estalos, tiros?

– porra, o que você tá fazendo?

meu irmão atirava em latinhas usando o revólver do assassino.

– não tá vendo?
– dentro de casa?
– as latinhas tão na janela, e só faltam 3.
– caralho…
– esse taurus tem 9 tiros…

derrubou as 3 latinhas. abriu o tambor. tirou as cápsulas usadas.

– calibre ridículo, e ainda assim matou mamãe.
– o revólver não matou ninguém. quem matou é seu… experimento.
– quer pra ti o revólver?
– acho que não…
– vou guardar, então. minha arma é a 12.
– o que falta fazer com o cara?
– tu vai ver.

VI

acordei no dia seguinte e aproveitei o silêncio pra sair sem fazer alarde. precisava
refletir sobre tudo aquilo, queria caminhar. andei por umas boas horas e não refleti
nada. começava a chorar quando pensava em minha mãe e tinha arrepios pensando
em meu irmão. desisti de pensar e apenas andei. cheguei numa lagoa pequena onde
eu pesquei umas vezes quando criança. sempre detestei pescar. ou pensar.

voltei e fui pro galpão. meu irmão estava operando nosso hóspede.

– caminhaste bastante?
– fui até a lagoa.
– saudade de pescar por lá.
– o que você está fazendo agora??
– retirei todos os dentes, fora 4 molares em cada arcada. ele poderá mastigar, mas
não morder. também tirei as pregas vocais. não poderá falar ou gritar.
– o que você vai fazer ainda??
– fique e veja.

pegou um instrumento parecido com um picador de gelo. ou era um picador de
gelo mesmo.

– chamavam a isso de ‘cirurgia da alma’.

olhei em silêncio. ele começou a enfiar a ponta do objeto por sobre o olho do nosso
amigo. foi entrando lentamente.

– droga, o osso aqui está mais duro do que deveria.

pegou um martelinho e começou a bater.

– a camada de osso é tão fina, mas como é a primeira vez que faço isso…

o instrumento deve ter transpassado a camada óssea, pois foi até quase o fim. fez
movimentos para um lado e para o outro.

– agora tenho que fazer no outro olho também.
– isso é uma lobotomia, né??
– sim. óbvio.

caralho. fiquei lá assistindo. não sentia mais os arrepios, nem a ânsia de vômito. só
olhava. nem me perguntava mais o porquê.

– serviço feito. você foi na lagoa, né?
– sim.
– tinha peixe?
– como caralhos eu vou saber??
– retardado. bem, vou pegar uma garrafa de pinga e um caniço e curtir a tarde por lá.
não está a fim?
– pode ser.
– a gente leva cerveja também.

fomos pescar. o que seria melhor pra relaxar depois de ter executado uma lobotomia,
não é mesmo?

– cara, sério, e depois?
– a gente passa na farinha e frita.
– não se faça de comediante. falo do cara.
– ué, vou manter preso numa corrente, com uma cama no chão, um balde pra cagar
e uma porção diaria de bonzo.
– !!!
– relaxa, depois da lobotomia ele nem mais sabe o que acontece. como um cachorro,
quer dizer, um cachorro burro.
– e você vai cuidar?
– claro!! vai ser meu cachorro, meu bicho.
– bem, você sabe que eu tenho que voltar pra faculdade…
– sim, sim. é claro que eu sei, pode voltar quando quiser, o pior já foi. tá tudo bem.
– ótimo, vou partir amanhã, pode ser?
– não entendo a pressa, mas tudo bem.
– já disse, tenho que me formar.
– sei bem, sei bem.

não pescamos nada e voltamos. meu irmão estava meio bêbado e foi dormir. eu não
dormi nada apenas esperei o tempo passar.

– fez as malas?
– feitas.
– pois leve para a rural, te levo até a rodoviária.
– obrigado.
– não tem de que.

e pegamos a estrada. no caminho inteiro cantarolou ‘i’ve got you under my skin’.

– me dê um abraço.

e parti.

VII

nunca fomos de manter muita correspondência, eu e meu irmão. uns e-mails e só,
na verdade bem de vez em quando. pra minha surpresa, ele começou a mandá-los
quase diariamente. o assunto? aquele aborto que ele havia criado. parei de responder,
depois parei de ler e até de abrir. recebia e ignorava. ele telefonou:

– não me responde mais via internet?
– ando muito ocupado.
– entendo.
– ele teve gangrena numa perna, tive que amputar mais. acho que foram as moscas.
– escute, eu não quero mais saber disso, você entende?
– ah.
– sério… sério… o que você faz é problema seu, mas eu não quero mais saber.
– teu bosta.

não recebi mais e-mails e nem telefonemas por uns 3 meses. lá pelo meio do semestre
recebi uma ligação, era o delegado.

– rapaz, guardo de te dar péssimas notícias, teu irmão faleceu…
– como??
– teu irmão faleceu e parece; não parece, na verdade absolutamente tudo indica, que
foi suicídio. sabe alguma coisa sobre o que pode ter abalado o psíquico dele?
– ele andava bebendo muito.
– ele sempre bebeu muito.
– e teve mamãe…
– quer que eu cuide do velório pra ti enquanto tu não chega aqui??
– sim, claro.
– bem, venha logo. estaremos esperando.

corri para meu computador e abri meu e-mail. havia um de meu irmão com o assunto
‘eu não tinha o direito’:

‘teu silêncio é meu silêncio, de nada te culpo. não é esse meu caso. mas aconteceu algo,
nosso cachorro… ele morreu, e a culpa é minha. eu larguei perto dele uma garrafa
vazia. não achei que ele faria nada. pois bem, ele deu um jeito de quebrar e comeu
os cacos. uma garrafa inteira. não tive tempo de fazer nada, só achei o corpo ali
inerte pela manhã. eu não tinha o direito. eu não tinha o direito. ia dissolver o corpo
com soda, mas conforme já havia pensado, achei pouco ecológico. desmembrei, vou
enterrá-lo no meio da reserva daqui da fazenda vizinha, onde ninguém vai. não se
preocupe. ninguém vai descobrir.
tente me responder.
por favor.’

datava de três dias.

– doutor?
– ah, rapaz… que desgraça. que desgraça…
– como foi?
– tiro de 12 na boca. tu nem imagina o horror.
– …
– ele tava bebendo muito mesmo, né? tava faltando direto no trabalho e não falava
com ninguém.
– doutor, meu irmão sempre quis ser cremado…
– sério? bem, filho, cremar cadáver de morte violenta é muito difícil…
– bem, deixa, ele que fique com minha mãe, então.
– sim, meu filho, é mais cristão também.

olhei  pro delegado, com um sorriso.

vieram as mesmas pessoas praticamente que no velório de minha mãe. inclusive a
vaca da defensora. ela me cumprimentou chorando e disse ‘eu sei’. gelei. a noite foi
longa, não servi mais de duas garrafas de pinga que estavam na cozinha, não ia
gastar meu dinheiro com pinga pra essa gente.

corpo enterrado, só pensava: ‘eu sei’… sabe o caralho, vadia. sabe o caralho de porra
nenhuma.

voltei pra faculdade, e comecei a me aproximar mais de um colega com quem eu já
havia conversado bastante. eu sabia que não seria efetivado no meu trabalho. brasiguaio…
e o pai tinha uma loja de armas em ciudad del este, ele queria expandir. precisava
de um sócio. nos meses seguintes cuidei de liquidar minha herança, o sítio. foi fácil,
o fazendeiro ao lado comprou o lugar por um bom preço, até. não vendi a rural e
nem as armas. colei grau, peguei a caminhonete e rumei para o oeste. então seria isso:
vender armas. é pena que a legislação brasileira seja de um estatismo arcaico e nos
obrigue a operar ilegalmente por aqui… estatismo, atraso, país de merda.

que falta faz uma segunda emenda.

quase chegando na froteira paraguaia eu me lembrei de um escritor francês que
certa vez meu irmão estava lendo. o cara tinha largado da poesia pra mexer com armas
na áfrica. e tinha o nome de um personagem do stallone… acho que rambo ou rocky.
tanto faz. ele escreveu um treco chamado ‘uma estação no inferno’ antes de largar
dessa viadagem de escrever. pensei em fazer o relato do meu inferno. eis o que vocês
leram.

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