a inocência dos bichos

por danielkamykovas

VII

 
nunca fomos de manter muita correspondência, eu e meu irmão. uns e-mails e só,
na verdade bem de vez em quando. pra minha surpresa, ele começou a mandá-los
quase diariamente. o assunto? aquele aborto que ele havia criado. parei de responder,
depois parei de ler e até de abrir. recebia e ignorava. ele telefonou:

– não me responde mais via internet?
– ando muito ocupado.
– entendo.
– ele teve gangrena numa perna, tive que amputar mais. acho que foram as moscas.
– escute, eu não quero mais saber disso, você entende?
– ah.
– sério… sério… o que você faz é problema seu, mas eu não quero mais saber.
– teu bosta.

não recebi mais e-mails e nem telefonemas por uns 3 meses. lá pelo meio do semestre
recebi uma ligação, era o delegado.

– rapaz, guardo de te dar péssimas notícias, teu irmão faleceu…
– como??
– teu irmão faleceu e parece; não parece, na verdade absolutamente tudo indica, que
foi suicídio. sabe alguma coisa sobre o que pode ter abalado o psíquico dele?
– ele andava bebendo muito.
– ele sempre bebeu muito.
– e teve mamãe…
– quer que eu cuide do velório pra ti enquanto tu não chega aqui??
– sim, claro.
– bem, venha logo. estaremos esperando.

corri para meu computador e abri meu e-mail. havia um de meu irmão com o assunto
‘eu não tinha o direito’:

‘teu silêncio é meu silêncio, de nada te culpo. não é esse meu caso. mas aconteceu algo,
nosso cachorro… ele morreu, e a culpa é minha. eu larguei perto dele uma garrafa
vazia. não achei que ele faria nada. pois bem, ele deu um jeito de quebrar e comeu
os cacos. uma garrafa inteira. não tive tempo de fazer nada, só achei o corpo ali
inerte pela manhã. eu não tinha o direito. eu não tinha o direito. ia dissolver o corpo
com soda, mas conforme já havia pensado, achei pouco ecológico. desmembrei, vou
enterrá-lo no meio da reserva daqui da fazenda vizinha, onde ninguém vai. não se
preocupe. ninguém vai descobrir.
tente me responder.
por favor.’

datava de três dias.

– doutor?
– ah, rapaz… que desgraça. que desgraça…
– como foi?
– tiro de 12 na boca. tu nem imagina o horror.
– …
– ele tava bebendo muito mesmo, né? tava faltando direto no trabalho e não falava
com ninguém.
– doutor, meu irmão sempre quis ser cremado…
– sério? bem, filho, cremar cadáver de morte violenta é muito difícil…
– bem, deixa, ele que fique com minha mãe, então.
– sim, meu filho, é mais cristão também.

sorrio pro delegado.

vieram as mesmas pessoas praticamente que no velório de minha mãe. inclusive a
vaca da defensora. ela me cumprimentou chorando e disse ‘eu sei’. gelei. a noite foi
longa, não servi mais de duas garrafas de pinga que estavam na cozinha, não ia
gastar meu dinheiro com pinga pra essa gente.

corpo enterrado, só pensava: ‘eu sei’… sabe o caralho, vadia. sabe o caralho de porra
nenhuma.

voltei pra faculdade, e comecei a me aproximar mais de um colega com quem eu já
havia conversado bastante. eu sabia que não seria efetivado no meu trabalho. brasiguaio…
e o pai tinha uma loja de armas em ciudad del este, ele queria expandir. precisava
de um sócio. nos meses seguintes cuidei de liquidar minha herança, o sítio. foi fácil,
o fazendeiro ao lado comprou o lugar por um bom preço, até. não vendi a rural e
nem as armas. colei grau, peguei a caminhonete e rumei para o oeste. então seria isso:
vender armas. é pena que a legislação brasileira seja de um estatismo arcaico e nos
obrigue a operar ilegalmente por aqui… estatismo, atraso, país de merda.

que falta faz uma segunda emenda.

quase chegando na froteira paraguaia eu me lembrei de um escritor francês que
certa vez meu irmão estava lendo. o cara tinha largado da poesia pra mexer com armas
na áfrica. e tinha o nome de um personagem do stallone… acho que rambo ou rocky.
tanto faz. ele escreveu um treco chamado ‘uma estação no inferno’ antes de largar
dessa viadagem de escrever. pensei em fazer o relato do meu inferno. eis o que vocês
leram.

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