a inocência dos bichos

por danielkamykovas

VI

acordei no dia seguinte e aproveitei o silêncio pra sair sem fazer alarde. precisava
refletir sobre tudo aquilo, queria caminhar. andei por umas boas horas e não refleti
nada. começava a chorar quando pensava em minha mãe e tinha arrepios pensando
em meu irmão. desisti de pensar e apenas andei. cheguei numa lagoa pequena onde
eu pesquei umas vezes quando criança. sempre detestei pescar. ou pensar.

voltei e fui pro galpão. meu irmão estava operando nosso hóspede.

– caminhaste bastante?
– fui até a lagoa.
– saudade de pescar por lá.
– o que você está fazendo agora??
– retirei todos os dentes, fora 4 molares em cada arcada. ele poderá mastigar, mas
não morder. também tirei as pregas vocais. não poderá falar ou gritar.
– o que você vai fazer ainda??
– fique e veja.

pegou um instrumento parecido com um picador de gelo. ou era um picador de
gelo mesmo.

– chamavam a isso de ‘cirurgia da alma’.

olhei em silêncio. ele começou a enfiar a ponta do objeto por sobre o olho do nosso
amigo. foi entrando lentamente.

– droga, o osso aqui está mais duro do que deveria.

pegou um martelinho e começou a bater.

– a camada de osso é tão fina, mas como é a primeira vez que faço isso…

o instrumento deve ter transpassado a camada óssea, pois foi até quase o fim. fez
movimentos para um lado e para o outro.

– agora tenho que fazer no outro olho também.
– isso é uma lobotomia, né??
– sim. óbvio.

caralho. fiquei lá assistindo. não sentia mais os arrepios, nem a ânsia de vômito. só
olhava. nem me perguntava mais o porquê.

– serviço feito. você foi na lagoa, né?
– sim.
– tinha peixe?
– como caralhos eu vou saber??
– retardado. bem, vou pegar uma garrafa de pinga e um caniço e curtir a tarde por lá.
não está a fim?
– pode ser.
– a gente leva cerveja também.

fomos pescar. o que seria melhor pra relaxar depois de ter executado uma lobotomia,
não é mesmo?

– cara, sério, e depois?
– a gente passa na farinha e frita.
– não se faça de comediante. falo do cara.
– ué, vou manter preso numa corrente, com uma cama no chão, um balde pra cagar
e uma porção diaria de bonzo.
– !!!
– relaxa, depois da lobotomia ele nem mais sabe o que acontece. como um cachorro,
quer dizer, um cachorro burro.
– e você vai cuidar?
– claro!! vai ser meu cachorro, meu bicho.
– bem, você sabe que eu tenho que voltar pra faculdade…
– sim, sim. é claro que eu sei, pode voltar quando quiser, o pior já foi. tá tudo bem.
– ótimo, vou partir amanhã, pode ser?
– não entendo a pressa, mas tudo bem.
– já disse, tenho que me formar.
– sei bem, sei bem.

não pescamos nada e voltamos. meu irmão estava meio bêbado e foi dormir. eu não
dormi nada apenas esperei o tempo passar.

– fez as malas?
– feitas.
– pois leve para a rural, te levo até a rodoviária.
– obrigado.
– não tem de que.

e pegamos a estrada. no caminho inteiro cantarolou ‘i’ve got you under my skin’.

– me dê um abraço.

e parti.

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