a inocência dos bichos

por danielkamykovas

V

o assassino de minha mãe.

– por que essa cara?? eu o mataria e sumiria com o corpo, dissolveria em
soda, mas isso me incomodou. poderia entregar pra polícia, mas por quê?
o sistema é falido. resolvi tratar da ferida, ficou bom. achei que o tratamento
poderia ser mais extenso. realmente resolver a situação dele e da sociedade.
aí eu amputei a outra mão e decidi fazer outras ‘intervenções’. como cientista
e também como artista, afinal a arte nunca pode ser totalmente divorciada
da ciência.

estava em uma cama improvisada em uma bancada, atado. recebia soro.

– há de ver, há de ver.

tirada a mordaça, estava grunhindo.

– aqui é hospital? estou doente, doente, doente…
– sim, é hospital. vamos tratar direitinho de você.
– ah… não parece hospital.
– aqui, seu remédio.

aplicou uma injeção.

– quetamina… dá uma viagem boa em menor quantidade. quer experimentar?
– er… melhor não…
– não é o mais indicado aqui, mas é o que tinha.

apagou de novo.

– bem, agora vou amputar os dois pés, quer ajudar?

tive uma violenta queda de pressão, fiquei branco.

– frouxo… é uma simples amputação. vou fazer isso antes de dormir.
sabia que no passado eram feitas em menos de um minuto? vai ser rápido.
– você…
– deixe de ser cuzão, venha.

acompanhei o ‘procedimento’, ou que caralho que aquilo seja. o bisturi cortava
a pele, a gordura, os músculos. os vasos foram rapidamente suturados, mesmo
bêbado e sem dormir meu irmão era ágil. chegando ao osso, a serra. foi tudo
rearranjado e suturado fazendo um coto. no outro pé foi igual.

corri depois pra fora e vomitei.

– e se alguém souber?
– que o quê! olhe em volta! num tem porra nenhuma. ele pode gritar o que
for. e mesmo assim, isso também vai ser resolvido.
– mas é desumano… justo você…
– desumano é o caralho. tu nunca te importou com essas coisas. estou num
experimento.
– da idade média ou nazista?
– ah, porra.
– o que você vai fazer?
– o que eu tenho que fazer, ué.
– quero ir embora daqui do sítio.
– vai trair teu sangue, teu merda?? fique um tempo, preciso de você.

bebeu a pinga do gargalo. me ofereceu. neguei.

– fico.
– ótimo, terei que fazer mais umas coisinhas. depois ele estará pronto.
– pronto pra quê?
– pra viver outra vida.
– não entendo, não entendo você. mas vou ficar ao seu lado.
– pra isso é que serve a família.

me abraçou, entramos, eu fui dormir. acordei com estalos, tiros?

– porra, o que você tá fazendo?

meu irmão atirava em latinhas usando o revólver do assassino.

– não tá vendo?
– dentro de casa?
– as latinhas tão na janela, e só faltam 3.
– caralho…
– esse taurus tem 9 tiros…

derrubou as 3 latinhas. abriu o tambor. tirou as cápsulas usadas.

– calibre ridículo, e ainda assim matou mamãe.
– o revólver não matou ninguém. quem matou é seu… experimento.
– quer pra ti o revólver?
– acho que não…
– vou guardar, então. minha arma é a 12.
– o que falta fazer com o cara?
– tu vai ver.

Anúncios