a inocência dos bichos

por danielkamykovas

IV

fiquei a manhã inteira pensando na minha mãe, mas pensando mais em meu
irmão. então ele matou o cara e sumiu com o corpo. justo ele que que ficava
de blablablá sobre direitos humanos e justiça e lei e o cacete. bem, acho que
agora eu tenho um argumento bom pras próximas conversas, se é que ele vai
abordar de novo esses assuntos. bateu na porta do meu quarto pelo meio dia.

– liberaram o corpo da mãe. já tá rumando pro velório. e o enterro vai ser de
manhã.
– vamos pra lá agora, né?
– antes coma alguma coisa, sei que tu deve estar sem fome, mas é melhor.
– vou tomar banho, me arrumar e partimos, pode ser?
– vou te esperar na sala.

– vamos?
– vamos.

carregava uma sacola de feira com garrafas.

– quantas pingas você está levando?
– cinco, das melhores, pra mim e pros amigos. aqui gostamos de beber o morto.

– bora lá.

chegamos no cemitério e fomos pro velório. era antigo e sujo. mamãe não
tinha parentes vivos e não tinha muitos contatos. esperávamos uns vizinhos,
umas poucas amizades, e o pessoal do meu irmão.  eu? ninguém.

– meus pêsames.

era um dos peões das fazendas vizinhas. esses caras faziam uns pequenos
serviços no sítio e mamãe pagava bem melhor que os fazendeiros por uma
jornada.

– obrigado. tome uma pela finada.
– agradecido.

tantos outros chegaram e foi mais ou menos igual. pelo visto, vieram pra
beber. veio o delegado.

– rapazes, meus sentimentos.
– obrigado, doutor.
– ah, trouxe o que prometi.

entregou a meu irmão um embrulho em papel pardo. os cartuchos de 12.

– muito obrigado, vamos beber.

a cada um que chegava, meu irmão servia uma dose e bebia outra. acabaria
desmaiando desse jeito.

– cara, pega leve.
– ah, pelo amor, tu que é o caçula.

chegou uma moça chorando. não acreditei.

– me avisaram no fórum… por que você não me ligou?

era a ex noiva, a quem minha mãe odiava.

– desculpa, não liguei pra muita gente, mesmo.
– que desgraça.
– …
– hoje até eu vou beber.
– …
– sabe, em respeito a você e a ela, se eu for nomeada pra defesa, vou me
declarar suspeita.
– é bastante ético de sua parte.
– eu tento ser.

vaca hipócrita.

e foi uma longa madrugada. lá pelas duas eu comecei a beber também. as
conversas eram tristes, respeitosas. e irritantes. pelas quatro ou cinco
comecei a chorar compulsivamente. foi assim até o sol nascer.

chegou o padre e fez seu serviço. meu irmão não tinha chamado, deve ter
sido o delegado. falou e falou, rezamos e fizemos o sinal da cruz.

– bem, vai sair o féretro.

pegamos nas alças, eu e meu irmão, o delegado, dois peões e a maldita da
defensora, ignorando os costumes. mas eu não iria discutir.

– alguém quer jogar o punhado de terra?

meu irmão se prontificou.

e assim foi o enterro. nos despedimos e pegamos a rural. novamente silêncio.
chegando em casa, fui me encaminhando pro quarto.

– espere, você não vai dormir agora, tenho algo pra mostrar.

fomos até o galpão e entramos.

– !!!

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