a inocência dos bichos

por danielkamykovas

III

entramos em casa. corremos pro quarto de minha mãe. estava sentada
em frenta à janela. chorava. um cara segurava um revólver contra seu ouvido.
deve ter se assustado. disparou e levantou o revólver na altura do rosto.
meu irmão também disparou, mirando provavelmente na cabeça dele. o tiro
acabou pegando na mão armada. arrancou o revólver, a mão e um pedaço
do pulso. tudo se foi pela  janela. caiu de joelhos, gritou desesperado
segurando o membro que sangrava. meu irmão foi disparar uma segunda
vez. falhou. pegou a arma pelo cano e deu com violência uma coronhada
na têmpora dele. desmaiou. fomos acudir nossa mãe. a carregamos
até a sala. agora eu chorava.

– espera, espera, ESPERA, PORRA!
– cara, a gente tem que correr, se não ela…
– ela morreu.
– puta que pariu! ela num é uma égua, veterinário de merda!
– escuta esse peso… cadáver ‘pesa’ diferente. não há pulso, nem respiração.
deixa ver a cabeça aqui. é, disparo de calibre pequeno, mas trincou e
levantou o crânio aqui, note, pelo ângulo de entrada. caralho, isso saindo
é massa encefálica.

entrei em choque.

– isso não pode ficar assim.
– …
– leva a mãe pro hospital, você tá em condição de dirigir?
– …
– acorda, porra!
– tô, tô sim.
– chegando lá, fala que nós entramos em casa, tinha um cara com um
revólver apontado pra cabeça dela. fala que ele atirou, eu atirei,
ele evadiu, e eu saí atrás dele.
– não estou entendendo nada.
– FALA EXATAMENTE ISSO. o cara matou mamãe e fugiu. eu atirei e deu
de raspão. ele fugiu, eu ajudei a colocar mamãe no carro e fui atrás do cara.
ENTENDIDO?
– mas por que…
– faz o que eu falo, caralho.
– tá.
– vou dar um jeito no cara.
– mas… e a justiça, a vingança, eu não entendo…
– cala a boca e zarpa daqui. é uma hora e pouco até o hospital. tenho que
tomar um monte de providências antes de chegar a polícia.

a hora e meia mais dura de minha vida. cravei as mãos no volante,
mantive os olhos na estrada. chequei no pê-esse atônito.

– meu deus!
– corre aqui!

tentaram colocá-la na maca, mas estava em rigidez.

– meu filho, infelizmente agora é no i-eme-ele.

fiquei sentado esperando por mais de duas horas, até que veio um polícia
falar comigo.

– o senhor é filho da senhora baleada?
– sim.
– meus pêsames.
– obrigado.
– o senhor precisa nos acompanhar até o distrito.
– claro.

fiquei com um pouco de medo e amaldiçoei meu irmão.

– sente aí e conte como foi.

dei a versão do meu irmão.

– você viu a cara do assassino?
– vi. tinha uns 20 anos, cabelo curto com uns desenhos raspados, branco.
– e seu irmão… espera, seu irmão não é veterinário?
– sim, sim, do regimento da polícia montada.
– puta merda, eu conheço seu irmão… isso muda tudo.
– ?
– muda, claro. seu irmão é chegado… se vocês tão falando é certo.
vou com você até sua casa. lá conversaremos.

outras longas horas de minha vida.

– ô, veterinário, se lembra de mim?
– claro, doutor.
– mas que desgraça. meu sinceros pêsames.
– obrigado.
– tu foi atrás do maldito?
– fui e nada, o meu irmão contou do meu tiro?
– sim, que pegou de raspão e o segundo falhou.
– daí fui correr atrás, mas não achei rastro nem nada.
– sua munição deve ser velha.
– é.
– depois eu te consigo alguma.
– agradecido.
– posso ver a cena, sabe como é, minha obrigação…

gelei, poucas vezes tive tanto medo.

– foi aqui na frente da janela?
– foi.
– ela tava aberta?
– sim.
– entendo. e esse sangue?
– de minha mãe.

notei que o sangue do assassino havia sido limpo. se o cara quisesse usar o
luminol, estávamos fodidos. mas estamos no brasil, por sorte.

– pobres rapazes. podem mandar limpar.
– obrigado.
– fica assim, temos a descrição, na primeira oportunidade pegaremos o
vagabundo. mas tu sabe como é difícil.
– entendo. agora te acalme. tome um trago.
– sei que o doutor está em serviço, mas…
– em serviço para um amigo. entendi e aceito.

dessa vez eu também aceitei. nem rasgou a garganta.

– a liberação do corpo…
– vou cuidar pra ti. o necroscópico não vai demorar mais que um dia, visto
a causa mortis óbvia. viu a arma?
– um revólver, acho que 22.
– acha por quê?
– eu conheço armas. e pelo ferimento de minha mãe, um pequeno orifício,
osso trincado aberto em ‘tampa’ e escorrimento posterior de massa
encefálica. provavelmente ziguezagueou triturando o cérebro. coisa de 22 ele-erre.
mas, não sou legista, sou veterinário. mas sei algo de medicina forense.
– jesus… bem, o laudo dirá.
– pois é.
– bem, vou embora. vou cuidar que amanhã mesmo haja a liberação. irei ao
velório.
– agradecidos, doutor.

ele se foi e eu perguntei:

– e?
– vá pro seu quarto, falamos amanhã.

só consegui dormir muito tarde. na verdade nem sei se dormi. ouvi um grito
pavoroso. não sabia se era sonho.

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