a inocência dos bichos

por danielkamykovas

II

– acorda pra cuspir, vagabundo!
– estou acordado.
– a mamãezinha tá fazendo café pra você.
– já vou, já vou.

– vocês dois voltam pra almoçar??
– não.
– ah.
cara de quem recebe uma punhalada no peito.
– temos muito o que fazer, e além disso vai ter barreado lá no bar do alceu.
– daí vocês dois vão encher a pança de barreado e de pivo…
– exatamente.
cara de quem recebe uma segunda punhalada no peito.

– temos que levar alguma coisa?
– as carteiras e só, vamos é trazer.

subindo na rural, notei o cabo da 12 ao alcance da mão do motorista.

– você ainda com essa 12?

não gostava daquela arma. meu irmão havia pego uma espingarda de caça
que era de nosso avô, serrado os canos, serrado a coronha e feito aquela
coisa.

– é boa. agora que trabalho pra pm ninguém enche o saco falando de porte
ilegal. a lei é para os inimigos, já dizia o getúlio.

um sorriso cínico, com o cinismo que só meu irmão sabia ter.

– bem, vamos que a estrada é longa.

pouco falamos no caminho. não havia som no carro.

– aqui.

meu irmão e o dono do depósito conversaram longamente sobre coisas as
quais eu não tinha a menor idéia. eu escutava e depois ajudaria a carregar.
no fim, nem carregar. os peões fizeram o serviço. com tudo acertado
meu irmão tomou uma pinga com o dono. me ofereceram, neguei, e eles
riram.

– vamos lá pro alceu, que o barreado tá na terra desde ontem. tomamos
cerveja até sair o rancho.

e fomos. era um boteco rústico de tudo na beira de uma estrada de cascalho,
estávamos nós e um pessoal a quem meu irmão cumprimentou com um
aceno meio descontente. pediu cerveja e uma pinga.

– gosto da comida e da bebida, mas não gosto muito da gente.
– não tem delivery?
– seria bem conveniente…

longo silêncio.

– a música também irrita.
– de fato.

chegou um cara e chamou meu irmão pelo nome, deu a mão. sorriram.

– mas tem tempo que tu não passa por aqui!
– pega um copo e senta aí.
– pois então, soube que tu está na polícia…
– sim. veterinário.
– tá cuidando da saúde dos soldados?
– bem observado.
– voltou pro sítio?
– na verdade, sim. mas pegar a estrada diariamente pra trabalhar tem me
dado nos nervos.
– entendo… e a noiva?
– deu em nada… fim.
– mas tu tá bem, né?
– não sou de me abalar, tu bem sabe.
– verdade.

era claro que ele tava mal e que a conversa fluia mal.

– vou pegar mais cerveja e uma pinga.
– traga duas, então.
– teu irmão tá bem, mesmo?
– se ele diz que tá…

nisso chega um nóia pedindo um real. não demos e ele foi embora irritado.

– porra, até aqui??
– como assim ‘até aqui’? o que mais tem agora é nóia por todo o canto.
– o que foi?
– teu irmão espantado do nóia pedir um real…
– ah, ele pensa que aqui é um prado bucólico e idílico.
– ?
– ?
– nóia é uma raça maldita.
– fosse teu parente, seria dependente químico e tratado como simples doente.

virou a dose.

– bem, satisfação em vê-los… mas vou comer em casa, barreado não é pra mim.
– até a vista.
– até.

foi servido o barreado. e comemos e comemos e comemos. bebemos. tivemos
que descansar por mais de uma hora até conseguirmos levantar.

– gostou?
– porra…
– duro é voltar pra casa depois de tudo isso.
– quer que eu guie?
– sou mais eu em coma.

fomos ainda mais calados que na ida. chegando, descarregamos as tralhas
no galpão, quando fomos entrar em casa,  ouvimos uma voz masculina
gritando. e o choro de nossa mãe. meu irmão foi pegar a 12 no carro.

Anúncios