a inocência dos bichos

por danielkamykovas

I

– mas você sabe o que penso, bandido bom é bandido morto.
– o mero emprego do chavão denota burrice, ainda mais quando este exprime
o modo de pensar de gente xucra, chula.
– é muito popular entre os caras pra quem você trabalha.
– eu trabalho pros cavalos da pm, não pros soldados da pm.
– dá no mesmo.
– não, cavalo só caga pelo cu. soldado adora cagar pela boca.
– …
– mas sério. é lamentável. um rapaz no último ano de administração, mesmo
que numa faculdade de merda, falar feito uma dona-de-casa analfabeta. se
fosse do governo federal, eu cassava seu prouni. aliás, não é você que andava
falando que o estado não serve pra nada, só pra roubar os indivíduos… então
porque não abre mão do benefício? tanta gente abriu mão do bolsa família…
– não sei o que uma coisa tem que ver com a outra. eu, usando desse tal
programa assistencialista, apenas estou tentanto recuperar o que é meu…
– todos os infindáveis impostos que você pagou em dois anos de vida
produtiva. como estagiário.
– vai tomar no cu.
– vou tomar uma pinga, quer?
– agh.
– viadinho.
– mas sério, o que tu e a canalhada toda querem é vingança, não justiça.
certo que a justiça do nosso país é uma merda, mas seria muito pior se
fosse institucionalizada a vingança. você deveria ler beccaria.
– quem??
– te digo que é ignorante. e também deveria ler sobre criminologia.
– pra ficar com idéia de comunista?
– sua burrice é ofensiva. quer uma cerveja, liberalzinho de internet?
– ok.

meu irmão era o inteligente, eu era o burro. ele tinha acabado de passar no
concurso pra veterinário do regimento de polícia montada. tinha cursado
federal e tava fazendo mestrado por lá. e eu, um estagiário no último ano
de a-dê-eme numa ‘uniesquina’, segundo meu irmão. eram minhas férias
antes do último semestre e resolvi passar com minha mãe, no sítio. nem sabia
que ele tinha voltado pra casa. a noiva, marília carrazzo, defensora pública,
esquerdista e o pior, paulista, tinha terminado com ele. essas idéias devem
ter um dedo dela, certeza.

– sua cerveja. amanhã tu me acompanha? tenho que comprar umas tralhas
que tão faltando aqui no sítio, lá no depósito agrícola.
– na rural?
– não. de jumentinho feito jesus entrando em jerusalem.
– com a grana que você gastou nessa rural dava pra comprar uma l-200.
– meu carro, meu dinheiro, meu problema.
– você deveria é comprar uma toyota bandeirante. em ponto morto treme
feito você antes da primeira dose.
– piadista de merda. vou tomar outra cana, se quer saber.

e fomos dormir.

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