daniel kamykovas – textos e diversos

um depósito de indiscrições

Mês: maio, 2013

a inocência dos bichos

V

o assassino de minha mãe.

– por que essa cara?? eu o mataria e sumiria com o corpo, dissolveria em
soda, mas isso me incomodou. poderia entregar pra polícia, mas por quê?
o sistema é falido. resolvi tratar da ferida, ficou bom. achei que o tratamento
poderia ser mais extenso. realmente resolver a situação dele e da sociedade.
aí eu amputei a outra mão e decidi fazer outras ‘intervenções’. como cientista
e também como artista, afinal a arte nunca pode ser totalmente divorciada
da ciência.

estava em uma cama improvisada em uma bancada, atado. recebia soro.

– há de ver, há de ver.

tirada a mordaça, estava grunhindo.

– aqui é hospital? estou doente, doente, doente…
– sim, é hospital. vamos tratar direitinho de você.
– ah… não parece hospital.
– aqui, seu remédio.

aplicou uma injeção.

– quetamina… dá uma viagem boa em menor quantidade. quer experimentar?
– er… melhor não…
– não é o mais indicado aqui, mas é o que tinha.

apagou de novo.

– bem, agora vou amputar os dois pés, quer ajudar?

tive uma violenta queda de pressão, fiquei branco.

– frouxo… é uma simples amputação. vou fazer isso antes de dormir.
sabia que no passado eram feitas em menos de um minuto? vai ser rápido.
– você…
– deixe de ser cuzão, venha.

acompanhei o ‘procedimento’, ou que caralho que aquilo seja. o bisturi cortava
a pele, a gordura, os músculos. os vasos foram rapidamente suturados, mesmo
bêbado e sem dormir meu irmão era ágil. chegando ao osso, a serra. foi tudo
rearranjado e suturado fazendo um coto. no outro pé foi igual.

corri depois pra fora e vomitei.

– e se alguém souber?
– que o quê! olhe em volta! num tem porra nenhuma. ele pode gritar o que
for. e mesmo assim, isso também vai ser resolvido.
– mas é desumano… justo você…
– desumano é o caralho. tu nunca te importou com essas coisas. estou num
experimento.
– da idade média ou nazista?
– ah, porra.
– o que você vai fazer?
– o que eu tenho que fazer, ué.
– quero ir embora daqui do sítio.
– vai trair teu sangue, teu merda?? fique um tempo, preciso de você.

bebeu a pinga do gargalo. me ofereceu. neguei.

– fico.
– ótimo, terei que fazer mais umas coisinhas. depois ele estará pronto.
– pronto pra quê?
– pra viver outra vida.
– não entendo, não entendo você. mas vou ficar ao seu lado.
– pra isso é que serve a família.

me abraçou, entramos, eu fui dormir. acordei com estalos, tiros?

– porra, o que você tá fazendo?

meu irmão atirava em latinhas usando o revólver do assassino.

– não tá vendo?
– dentro de casa?
– as latinhas tão na janela, e só faltam 3.
– caralho…
– esse taurus tem 9 tiros…

derrubou as 3 latinhas. abriu o tambor. tirou as cápsulas usadas.

– calibre ridículo, e ainda assim matou mamãe.
– o revólver não matou ninguém. quem matou é seu… experimento.
– quer pra ti o revólver?
– acho que não…
– vou guardar, então. minha arma é a 12.
– o que falta fazer com o cara?
– tu vai ver.

Anúncios

a inocência dos bichos

IV

fiquei a manhã inteira pensando na minha mãe, mas pensando mais em meu
irmão. então ele matou o cara e sumiu com o corpo. justo ele que que ficava
de blablablá sobre direitos humanos e justiça e lei e o cacete. bem, acho que
agora eu tenho um argumento bom pras próximas conversas, se é que ele vai
abordar de novo esses assuntos. bateu na porta do meu quarto pelo meio dia.

– liberaram o corpo da mãe. já tá rumando pro velório. e o enterro vai ser de
manhã.
– vamos pra lá agora, né?
– antes coma alguma coisa, sei que tu deve estar sem fome, mas é melhor.
– vou tomar banho, me arrumar e partimos, pode ser?
– vou te esperar na sala.

– vamos?
– vamos.

carregava uma sacola de feira com garrafas.

– quantas pingas você está levando?
– cinco, das melhores, pra mim e pros amigos. aqui gostamos de beber o morto.

– bora lá.

chegamos no cemitério e fomos pro velório. era antigo e sujo. mamãe não
tinha parentes vivos e não tinha muitos contatos. esperávamos uns vizinhos,
umas poucas amizades, e o pessoal do meu irmão.  eu? ninguém.

– meus pêsames.

era um dos peões das fazendas vizinhas. esses caras faziam uns pequenos
serviços no sítio e mamãe pagava bem melhor que os fazendeiros por uma
jornada.

– obrigado. tome uma pela finada.
– agradecido.

tantos outros chegaram e foi mais ou menos igual. pelo visto, vieram pra
beber. veio o delegado.

– rapazes, meus sentimentos.
– obrigado, doutor.
– ah, trouxe o que prometi.

entregou a meu irmão um embrulho em papel pardo. os cartuchos de 12.

– muito obrigado, vamos beber.

a cada um que chegava, meu irmão servia uma dose e bebia outra. acabaria
desmaiando desse jeito.

– cara, pega leve.
– ah, pelo amor, tu que é o caçula.

chegou uma moça chorando. não acreditei.

– me avisaram no fórum… por que você não me ligou?

era a ex noiva, a quem minha mãe odiava.

– desculpa, não liguei pra muita gente, mesmo.
– que desgraça.
– …
– hoje até eu vou beber.
– …
– sabe, em respeito a você e a ela, se eu for nomeada pra defesa, vou me
declarar suspeita.
– é bastante ético de sua parte.
– eu tento ser.

vaca hipócrita.

e foi uma longa madrugada. lá pelas duas eu comecei a beber também. as
conversas eram tristes, respeitosas. e irritantes. pelas quatro ou cinco
comecei a chorar compulsivamente. foi assim até o sol nascer.

chegou o padre e fez seu serviço. meu irmão não tinha chamado, deve ter
sido o delegado. falou e falou, rezamos e fizemos o sinal da cruz.

– bem, vai sair o féretro.

pegamos nas alças, eu e meu irmão, o delegado, dois peões e a maldita da
defensora, ignorando os costumes. mas eu não iria discutir.

– alguém quer jogar o punhado de terra?

meu irmão se prontificou.

e assim foi o enterro. nos despedimos e pegamos a rural. novamente silêncio.
chegando em casa, fui me encaminhando pro quarto.

– espere, você não vai dormir agora, tenho algo pra mostrar.

fomos até o galpão e entramos.

– !!!

a inocência dos bichos

III

entramos em casa. corremos pro quarto de minha mãe. estava sentada
em frenta à janela. chorava. um cara segurava um revólver contra seu ouvido.
deve ter se assustado. disparou e levantou o revólver na altura do rosto.
meu irmão também disparou, mirando provavelmente na cabeça dele. o tiro
acabou pegando na mão armada. arrancou o revólver, a mão e um pedaço
do pulso. tudo se foi pela  janela. caiu de joelhos, gritou desesperado
segurando o membro que sangrava. meu irmão foi disparar uma segunda
vez. falhou. pegou a arma pelo cano e deu com violência uma coronhada
na têmpora dele. desmaiou. fomos acudir nossa mãe. a carregamos
até a sala. agora eu chorava.

– espera, espera, ESPERA, PORRA!
– cara, a gente tem que correr, se não ela…
– ela morreu.
– puta que pariu! ela num é uma égua, veterinário de merda!
– escuta esse peso… cadáver ‘pesa’ diferente. não há pulso, nem respiração.
deixa ver a cabeça aqui. é, disparo de calibre pequeno, mas trincou e
levantou o crânio aqui, note, pelo ângulo de entrada. caralho, isso saindo
é massa encefálica.

entrei em choque.

– isso não pode ficar assim.
– …
– leva a mãe pro hospital, você tá em condição de dirigir?
– …
– acorda, porra!
– tô, tô sim.
– chegando lá, fala que nós entramos em casa, tinha um cara com um
revólver apontado pra cabeça dela. fala que ele atirou, eu atirei,
ele evadiu, e eu saí atrás dele.
– não estou entendendo nada.
– FALA EXATAMENTE ISSO. o cara matou mamãe e fugiu. eu atirei e deu
de raspão. ele fugiu, eu ajudei a colocar mamãe no carro e fui atrás do cara.
ENTENDIDO?
– mas por que…
– faz o que eu falo, caralho.
– tá.
– vou dar um jeito no cara.
– mas… e a justiça, a vingança, eu não entendo…
– cala a boca e zarpa daqui. é uma hora e pouco até o hospital. tenho que
tomar um monte de providências antes de chegar a polícia.

a hora e meia mais dura de minha vida. cravei as mãos no volante,
mantive os olhos na estrada. chequei no pê-esse atônito.

– meu deus!
– corre aqui!

tentaram colocá-la na maca, mas estava em rigidez.

– meu filho, infelizmente agora é no i-eme-ele.

fiquei sentado esperando por mais de duas horas, até que veio um polícia
falar comigo.

– o senhor é filho da senhora baleada?
– sim.
– meus pêsames.
– obrigado.
– o senhor precisa nos acompanhar até o distrito.
– claro.

fiquei com um pouco de medo e amaldiçoei meu irmão.

– sente aí e conte como foi.

dei a versão do meu irmão.

– você viu a cara do assassino?
– vi. tinha uns 20 anos, cabelo curto com uns desenhos raspados, branco.
– e seu irmão… espera, seu irmão não é veterinário?
– sim, sim, do regimento da polícia montada.
– puta merda, eu conheço seu irmão… isso muda tudo.
– ?
– muda, claro. seu irmão é chegado… se vocês tão falando é certo.
vou com você até sua casa. lá conversaremos.

outras longas horas de minha vida.

– ô, veterinário, se lembra de mim?
– claro, doutor.
– mas que desgraça. meu sinceros pêsames.
– obrigado.
– tu foi atrás do maldito?
– fui e nada, o meu irmão contou do meu tiro?
– sim, que pegou de raspão e o segundo falhou.
– daí fui correr atrás, mas não achei rastro nem nada.
– sua munição deve ser velha.
– é.
– depois eu te consigo alguma.
– agradecido.
– posso ver a cena, sabe como é, minha obrigação…

gelei, poucas vezes tive tanto medo.

– foi aqui na frente da janela?
– foi.
– ela tava aberta?
– sim.
– entendo. e esse sangue?
– de minha mãe.

notei que o sangue do assassino havia sido limpo. se o cara quisesse usar o
luminol, estávamos fodidos. mas estamos no brasil, por sorte.

– pobres rapazes. podem mandar limpar.
– obrigado.
– fica assim, temos a descrição, na primeira oportunidade pegaremos o
vagabundo. mas tu sabe como é difícil.
– entendo. agora te acalme. tome um trago.
– sei que o doutor está em serviço, mas…
– em serviço para um amigo. entendi e aceito.

dessa vez eu também aceitei. nem rasgou a garganta.

– a liberação do corpo…
– vou cuidar pra ti. o necroscópico não vai demorar mais que um dia, visto
a causa mortis óbvia. viu a arma?
– um revólver, acho que 22.
– acha por quê?
– eu conheço armas. e pelo ferimento de minha mãe, um pequeno orifício,
osso trincado aberto em ‘tampa’ e escorrimento posterior de massa
encefálica. provavelmente ziguezagueou triturando o cérebro. coisa de 22 ele-erre.
mas, não sou legista, sou veterinário. mas sei algo de medicina forense.
– jesus… bem, o laudo dirá.
– pois é.
– bem, vou embora. vou cuidar que amanhã mesmo haja a liberação. irei ao
velório.
– agradecidos, doutor.

ele se foi e eu perguntei:

– e?
– vá pro seu quarto, falamos amanhã.

só consegui dormir muito tarde. na verdade nem sei se dormi. ouvi um grito
pavoroso. não sabia se era sonho.

a inocência dos bichos

II

– acorda pra cuspir, vagabundo!
– estou acordado.
– a mamãezinha tá fazendo café pra você.
– já vou, já vou.

– vocês dois voltam pra almoçar??
– não.
– ah.
cara de quem recebe uma punhalada no peito.
– temos muito o que fazer, e além disso vai ter barreado lá no bar do alceu.
– daí vocês dois vão encher a pança de barreado e de pivo…
– exatamente.
cara de quem recebe uma segunda punhalada no peito.

– temos que levar alguma coisa?
– as carteiras e só, vamos é trazer.

subindo na rural, notei o cabo da 12 ao alcance da mão do motorista.

– você ainda com essa 12?

não gostava daquela arma. meu irmão havia pego uma espingarda de caça
que era de nosso avô, serrado os canos, serrado a coronha e feito aquela
coisa.

– é boa. agora que trabalho pra pm ninguém enche o saco falando de porte
ilegal. a lei é para os inimigos, já dizia o getúlio.

um sorriso cínico, com o cinismo que só meu irmão sabia ter.

– bem, vamos que a estrada é longa.

pouco falamos no caminho. não havia som no carro.

– aqui.

meu irmão e o dono do depósito conversaram longamente sobre coisas as
quais eu não tinha a menor idéia. eu escutava e depois ajudaria a carregar.
no fim, nem carregar. os peões fizeram o serviço. com tudo acertado
meu irmão tomou uma pinga com o dono. me ofereceram, neguei, e eles
riram.

– vamos lá pro alceu, que o barreado tá na terra desde ontem. tomamos
cerveja até sair o rancho.

e fomos. era um boteco rústico de tudo na beira de uma estrada de cascalho,
estávamos nós e um pessoal a quem meu irmão cumprimentou com um
aceno meio descontente. pediu cerveja e uma pinga.

– gosto da comida e da bebida, mas não gosto muito da gente.
– não tem delivery?
– seria bem conveniente…

longo silêncio.

– a música também irrita.
– de fato.

chegou um cara e chamou meu irmão pelo nome, deu a mão. sorriram.

– mas tem tempo que tu não passa por aqui!
– pega um copo e senta aí.
– pois então, soube que tu está na polícia…
– sim. veterinário.
– tá cuidando da saúde dos soldados?
– bem observado.
– voltou pro sítio?
– na verdade, sim. mas pegar a estrada diariamente pra trabalhar tem me
dado nos nervos.
– entendo… e a noiva?
– deu em nada… fim.
– mas tu tá bem, né?
– não sou de me abalar, tu bem sabe.
– verdade.

era claro que ele tava mal e que a conversa fluia mal.

– vou pegar mais cerveja e uma pinga.
– traga duas, então.
– teu irmão tá bem, mesmo?
– se ele diz que tá…

nisso chega um nóia pedindo um real. não demos e ele foi embora irritado.

– porra, até aqui??
– como assim ‘até aqui’? o que mais tem agora é nóia por todo o canto.
– o que foi?
– teu irmão espantado do nóia pedir um real…
– ah, ele pensa que aqui é um prado bucólico e idílico.
– ?
– ?
– nóia é uma raça maldita.
– fosse teu parente, seria dependente químico e tratado como simples doente.

virou a dose.

– bem, satisfação em vê-los… mas vou comer em casa, barreado não é pra mim.
– até a vista.
– até.

foi servido o barreado. e comemos e comemos e comemos. bebemos. tivemos
que descansar por mais de uma hora até conseguirmos levantar.

– gostou?
– porra…
– duro é voltar pra casa depois de tudo isso.
– quer que eu guie?
– sou mais eu em coma.

fomos ainda mais calados que na ida. chegando, descarregamos as tralhas
no galpão, quando fomos entrar em casa,  ouvimos uma voz masculina
gritando. e o choro de nossa mãe. meu irmão foi pegar a 12 no carro.

a inocência dos bichos

I

– mas você sabe o que penso, bandido bom é bandido morto.
– o mero emprego do chavão denota burrice, ainda mais quando este exprime
o modo de pensar de gente xucra, chula.
– é muito popular entre os caras pra quem você trabalha.
– eu trabalho pros cavalos da pm, não pros soldados da pm.
– dá no mesmo.
– não, cavalo só caga pelo cu. soldado adora cagar pela boca.
– …
– mas sério. é lamentável. um rapaz no último ano de administração, mesmo
que numa faculdade de merda, falar feito uma dona-de-casa analfabeta. se
fosse do governo federal, eu cassava seu prouni. aliás, não é você que andava
falando que o estado não serve pra nada, só pra roubar os indivíduos… então
porque não abre mão do benefício? tanta gente abriu mão do bolsa família…
– não sei o que uma coisa tem que ver com a outra. eu, usando desse tal
programa assistencialista, apenas estou tentanto recuperar o que é meu…
– todos os infindáveis impostos que você pagou em dois anos de vida
produtiva. como estagiário.
– vai tomar no cu.
– vou tomar uma pinga, quer?
– agh.
– viadinho.
– mas sério, o que tu e a canalhada toda querem é vingança, não justiça.
certo que a justiça do nosso país é uma merda, mas seria muito pior se
fosse institucionalizada a vingança. você deveria ler beccaria.
– quem??
– te digo que é ignorante. e também deveria ler sobre criminologia.
– pra ficar com idéia de comunista?
– sua burrice é ofensiva. quer uma cerveja, liberalzinho de internet?
– ok.

meu irmão era o inteligente, eu era o burro. ele tinha acabado de passar no
concurso pra veterinário do regimento de polícia montada. tinha cursado
federal e tava fazendo mestrado por lá. e eu, um estagiário no último ano
de a-dê-eme numa ‘uniesquina’, segundo meu irmão. eram minhas férias
antes do último semestre e resolvi passar com minha mãe, no sítio. nem sabia
que ele tinha voltado pra casa. a noiva, marília carrazzo, defensora pública,
esquerdista e o pior, paulista, tinha terminado com ele. essas idéias devem
ter um dedo dela, certeza.

– sua cerveja. amanhã tu me acompanha? tenho que comprar umas tralhas
que tão faltando aqui no sítio, lá no depósito agrícola.
– na rural?
– não. de jumentinho feito jesus entrando em jerusalem.
– com a grana que você gastou nessa rural dava pra comprar uma l-200.
– meu carro, meu dinheiro, meu problema.
– você deveria é comprar uma toyota bandeirante. em ponto morto treme
feito você antes da primeira dose.
– piadista de merda. vou tomar outra cana, se quer saber.

e fomos dormir.