I

solange liebmann beltrão – brasileira, solteira, advogada – desmaiou às 5:34 de 12 de janeiro de 2007. havia tentado o suicídio. foi encontrada por edivina da graça silva, conhecida por diva – brasileira, em união estável, diarista – precisamente às 8:57 do mesmo dia. a tentativa se deu por meio da ingestão de duas cartelas do benzodiazepínico lexotan, concomitantemente a uma garrafa de vinho do porto ferreira tawny. seu computador estava com o navegador aberto no site de vídeos youtube, indicando que o último assistido foi comme ils disent, de charles aznavour, com legendas em inglês.

às 9:03, edivina da graça, a diva, telefonou para o serviço de atendimento móvel de urgência, o samu, depois de suas tentativas para acordar a patroa, ou tomadora de serviço, mostrarem-se inócuas.

às 10:46, solange liebmann beltrão – loira, olhos verdes, 1,72m – passou por um procedimento de lavagem gástrica, desacordada.

às 12:23, gustavo liebmann beltrão – brasileiro, casado, arquiteto – chegou ao hospital onde sua irmã estava internada. suposta tentativa de suicídio. quatro lágrimas escorreram ao vê-la.

às 14:37, alia – do hebraico aaliyah: mulher sensível – liebmann beltrão teve um mal estar ao saber que a filha de 27 anos estava hospitalizada em são paulo. seu filho a dissuadiu de viajar.

às 16:42, a auxiliar de enfermagem mariana costa trocou a bolsa de soro da paciente do quarto 403 – uma moça aí que se entupiu de remédio. ministrou por via intravenosa medicações que não foram conferidas. todavia não houve erro.

às 18:27, o doutor rogério prado examinou solande liebmann beltrão – a paciente do quarto 403 – por um minuto e quarenta e dois segundos.

às 23:19 de 12 de janeiro de 2007, solange liebmann beltrão – magra, peitos pequenos e assimétricos, bunda chamativa – acordou em uma cama de hospital. não tinha memórias. atordoada, voltou ao sono.

ao ser encontrada, solange estava em posição fetal.
não escreveu carta ou nota com a motivação de seu gesto.

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