uma antiguidade:

por danielkamykovas

O Saudoso Vai-e-Vem

Havia um bar, onde éramos fregueses, na rua Riachuelo, próximo à escadaria que desce para a 23 de maio. Era onde nosso querido amigo Edu Chumbinho trabalhava, enquanto fazia suas peculiares palavras cruzadas. Lá, tínhamos tudo o que dá aquele feitio tosco a um boteco; a parede era decorada com um escudo do Corinthians e, logo abaixo dele, tínhamos uma coleção de quadros com fotos das equipes que ganharam os principais títulos do time. E um poster do Santos, tendo-se em vista que o Chumbinho era (e ainda deve ser) santista da gema. Corinthiano era o Alemão, antigo dono do boteco, que estava sempre bêbedo, e que toda a vez que nos via mostrava algum CD que ele havia comprado, sempre Jazz, quase sempre Be-Bop. Não é em qualquer boteco dessa categoria que você vai ouvir Charlie Parker enquanto se degusta uma deliciosa dose de pinga com limão (o famigerado “querosene”) a R$ 0,50.

Tínhamos também os inspirados anúncios nas paredes: “Beirute”, que ninguém nunca viu. “Peixes Frito”, que além de não ter concordância, eles nunca o tiveram de fato. E o melhor, “Ovos de GORDONA”, que mesmo se existisse eu não gostaria nada de experimentar.
Além do que também tínhamos a rica fauna que era freqüentadora do local, sempre de passagem (talvez por isso o nome do bar…), menos a gente, que sempre que o porão estava chato, ou lotado, ou com excesso de camisetas verdes e/ou pretas, íamos lá pra conversar sobre pesca, literatura, política, direito, politicagem, culinária, drogas, sexo, música… E “interagir” com as figurinhas estranhas do local, como o Perito Contador, o Livreiro, o Chefe da Segurança, o Valente, os taxistas… um mais bizarro que o outro. Um camarada nosso invariavelmente acabava jogando dominó com os taxistas, outro sempre pegava mais um “querosene”, outro “puxava” mais uma Brahma, o Perito, chato pra caralho, sempre começava algum assunto cretino e um de nós sempre acabava dando trela. Mas o mais legal é mesmo o Valente, um quarentão com jeito meio psicótico, professor de fotografia e porra-loca nas horas de ócio criativo.

Uma vez era de tarde, tínhamos prova, fomos lá só pra tomar um cafezinho. Nisso tinha um tio muito estranho do nosso lado que começou a puxar assunto num portunhol tosco. E, bestamente, demos ouvido. Pra que? O bicho começou a falar, falar, uma mentira pior que a outra. Falou que tinha apertado a mão do Ernesto Guevara, que conhecia não-sei-quem, que iria fazer não-sei-que, enfim, que ele era muito foda. O que me intriga é a razão de um cara tão foda assim estar numa merda daquelas. Noutras feitas, um cara ofereceu a mulher dele em troca de R$ 15,00. Um morador de rua reclamou dos assassinatos ocorridos contra seus pares. Um funcionário vinha xingar nosso estimado Director. Um amigo vinha chorar as pitangas de um amor perdido. Lá era o lugar pra tais assuntos, ótimo pra se chapar e trocar as idéias ora mais absurdas, ora mais sérias; era nosso refúgio do mundinho da nossa faculdade que tantas vezes dava ( e continua dando) no nossos sacos. E naquele lugar, entre as baratas e ratos que povoam nosso amado Centrão, tivemos grandes momentos que para sempre lembraremos, muito mais importantes que aquela matéria obscura do terceiro ano que você só lembra de ter cursado quando vai ler seu resumo escolar.

Daniel Braga
5.° Livre (Livre?)

Anúncios